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domingo, 6 de outubro de 2019

Laços do Blues (Epílogo)

Boa tarde, pessoal.
Hoje o dia não está muito bom. Como devem saber (pra quem acompanha as novidades do mundo classic rock), o baterista Ginger Baker morreu. E em homenagem a ele, hoje será postado o epílogo de minha fanfic. Minha primeira fanfic do Cream. Parece que foi ontem que escrevi de modo despretensioso pra expressar minha crush na época por Eric Clapton. Depois com a quantidade de outras fics, ela ficou em hiatus várias vezes e hoje é sua conclusão. Desejo-lhes boa leitura!



Rosie POV

Chegou o dia que Marianne deu à luz. Aconteceu num dia comum da primavera e eu ouvia Yardbirds no apartamento. Quando o disco terminou de tocar, eu a vi no sofá, se contorcendo. A bolsa estourou, ela chorava e procurava discar o número da emergência. Eu também estou grávida, mas meu filho está previsto pra nascer no próximo mês.

-- Me ajuda, Rosie... – ela pedia.

O que se passava na minha cabeça? Se não fosse o barrigão estaria sentada na cadeira, assistindo de camarote o sofrimento dela e não prestar ajuda alguma, alegando incapacidade física e ainda beberia um pouco de Martini. Não. Esse tipo de pensamento deveria ter com a russa maldita. Então fiz o que tinha de ser feito. Levei para o hospital e liguei para Edmund.

Um médico muito gentil veio falar comigo.

-- Srta. Donovan?

-- Sou eu.

-- Olá, me chamo Moses Smith. – ele apertou minha mão e nossa! Ele é um gato! Traços escoceses com galeses. Certamente o pai deve ser escocês e a mãe galesa, ou o contrário. – Marianne está sofrendo muito. As contrações estão fortes e pra piorar, o bebê está virado.

Engoli em seco ouvindo isso. Pela primeira vez senti medo de perder Marianne e se acontecer, não vou me recuperar tão cedo.

Uma hora depois apareceu Edmund, Ana (por que ela?), Chelsea e os pais (sim! O pai e a mãe) de Marianne. E mais uns momentos de parto. Ana foi obrigada entrar no quarto dela. Eu poderia, mas Ana se prontificou. Para não me estressar concordei. Não fiquei pro nascimento do bebê e na saída trombei com Ginger, chapado e meio louco.

-- Rosie... – ele me abraçou e o cheiro forte da maconha exalou total. – Onde está minha pequena?

-- No quarto.

-- Obrigado...

Deveria avisá-lo que não era mais bem-vindo para os Jones, mesmo sendo o pai do bebê. Voltei pra casa e chorei bastante. Talvez fosse melhor ter esse bebê e deixar unicamente com Edmund e largar Marianne. Passei o resto das horas até anoitecer e finalmente Ed retornou pra casa.

-- É uma linda menina. – ele disse e se deitando comigo na cama.

-- Que bom... – disse, soluçando. – Meus parabéns.

-- Rosie, calma. Não precisa chorar.

-- Só quero ficar sozinha. – respondi e me virando.

-- Posso ficar aqui em silêncio?

-- VAI EMBORA! – gritei e joguei um livro na cabeça dele.

-- Tudo bem...

E fechou a porta do quarto e a da sala. Certamente foi embora mesmo. Naqueles dias todos eu vivi no inferno. Passava o dia trancada, chorando e me recusando quem fosse ver. Marianne não voltou para o nosso apartamento e ficou na casa dos pais. Melhor assim. Mas num domingo de novembro, quando resolvi colocar o disco do Cream no aparelho, sinto algo úmido no meio das pernas.
Praguejei. Era hora. No momento que fui pedir ajuda para Edmund, me dei conta que não havia ninguém em casa. Era eu. Gritei de dor e um pouco de raiva até alguém tocar a campainha. Abri a porta e era... Eric Clapton.

-- Rosie...

-- Me ajuda...

Eric me levou até o carro e fomos juntos para o hospital. A dor era imensa. Chegando na porta de emergência, ele chamou os médicos e me colocaram na maca e em direção a sala do parto.

-- Eric, não me deixa...

-- Não vou te deixar...

Na sala eu chorava, suava e urrava de dor. Pensava o que teria feito de errado para merecer essa dor. Isso tudo é castigo por negar Marianne? Por ofender Ana e Chelsea a ponto de declarar guerra?

-- Não sentirá nada e quando acordar, será mãe. – avisou o médico, sorridente.

Vi claramente a enfermeira preparando uma seringa contendo algo. Anestesia.

-- Por favor... Não quero anestesia... – disse, ofegante.

-- Enfermeira Randall, faria a gentileza? – disse para enfermeira e em seguida me olhando. – Tenha calma, srta. Donovan. Não há o que se preocupar.

-- Não me diz o que preciso. Sou perfeitamente capaz... de decidir como dar à luz meu bebê.

Não deu outra. A enfermeira injetou meu braço.

-- Mas...

-- Boa noite, Srta. Donovan. Deixe tudo conosco.

-- Você...

Foi como adormecer de um dia cansativo. Neste caso, meu sonho continha minhas lembranças de meu ano em Oxford, os amigos feitos, o primeiro emprego, o namoro com Eric, os shows... O que para mim foi um instante, foram 5 horas de sono. Acordei na cama de hospital. Olhei para janela. Estava chovendo.

-- Rosie.

Olhei em direção a porta. Eric carregava um bebê e a enfermeira chegou. Me entregou o bebê. Não reagi em nenhum momento.

-- Meus parabéns. – disse a profissional e em seguida se retirando.

Eric achou graça.

-- Ela acha que somos os pais.

Não disse nada. Apenas olhava aquela criança. E não demonstrava nada. Era meu filho, sim. Carreguei por nove meses, mas não o queria.

-- Como ele vai se chamar?

-- Dorian.

-- Como o livro... – ele disse, em seguida sentando na beira da cama. – Lindo nome. Sei que não sou o pai mas... sinto como se ele fosse meu.

-- Poderia ser a gente. – respondi.

-- E não podemos?

-- E a japonesa? A garota que você me trocou por ela?

-- Ah... Ela conheceu um estudante de astronomia em Cambrigde. Brian, acho que era esse nome dele.

-- Sinto muito.

-- Eu mereci. O que eu fiz pra você não merecia perdão.

-- Eu também errei.

Eric tocou minha mão e trocamos um olhar. O mesmo que trocamos na primeira vez que nos vimos.

-- Pode me visitar sempre. – disse.

-- Obrigado.

Nos beijamos e quando terminou, tive a impressão que alguém observava o quarto. Dias após o nascimento do Dorian, decidi algo: larguei a faculdade em Oxford e me mudei para Londres. Consegui vaga para estudar na universidade pública da capital e minha mãe cuidava do meu bebê. Eric e eu não voltamos a namorar, contudo, continuamos amigos e de vez em quando... rolava algo entre nós.


2005

Não sei o que deu em mim para assistir o show de reunião do Cream. O tempo passa e ainda continuam os mesmos. As lembranças daquele ano de 1966 e 1967 foram os mais marcantes de minha vida. Eu vivi minha vida, aprendi ser independente, amar, tive meu filho, conquistei tudo com meu esforço e não sofri mais.

-- Rosie?

Me virei e era Marianne e sua filha, Sofia e o outro rapaz eu sei quem é mas esqueci o nome.

-- Marianne... – disse sem muita animação.

-- Madrinha! – Sofia me abraçou. – Você veio...

-- Sim...

-- Lembra do Joey? Meu marido.

-- É claro. – fingi um sorriso. Joseph Townshend, transpirando boniteza com cafajestice. Igual o Best. Ela casou com ele, se separaram em 2000 quando ele teve uma filha fora do casamento e voltaram. – Como você está, Joseph?

-- Muito bem, senhora.

Nos bastidores, Eric cumprimentou todos e veio até mim.

-- Rosie...

-- Eric...

Não estamos juntos. Mas ainda temos aquele apelo. A química. Eu perdoei Eric em 67 e ele me perdoou. No fim não somos perfeitos. E é melhor assim.


FIM



--- Cenas pós créditos da Marvel ----



1967

Duas semanas após o nascimento do Dorian, fui no hospital onde Marianne ganhou a Sofia e consultar com Dr. Smith. Chegando na sala dele, encontrei uma das amigas de Ana, a escocesa Nora Smith e acompanhada de um senhor de uns quarenta anos e ruivo.

-- Meus parabéns pelo bebê. – disse o doutor.

-- Ai que felicidade! – ela vibrava de alegria e na hora que saiu da sala me viu. – Rosie! Awn! Que bebê fofinho!

-- É o Dorian. – respondi. – Meu filho.

-- Meus parabéns para ele. Ah, este é meu pai. Eddard.
O homem mais velho me cumprimentou. Aquele homem grande tinha cheiro de patchouli com animais no campo. Deve ser fazendeiro, eu pensei. No entanto, não podia negar que ele era bonito. Demais para alguém quarentão. E ruivo.

Depois da despedida, o doutor me chama.

-- Pode entrar, Srta. Donovan.

E vamos para a consulta...




Rosie Donovan vai voltar

Marianne Jones vai voltar






Homenagem a Ginger Baker





Publicado em 2 de agosto de 2011

Finalizado em 6 de outubro de 2019


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Laços dos Blues (Capítulo Final)

Olá pessoal!
Tenham uma boa noite e agora fiquem com o capítulo final de Laços. Sim. Vai encerrar. Mas aguardem o epílogo!




Capítulo Final: I Wanna Be Free

Rosie POV

Não deveria ter ido à Escócia. Como me arrependo disso. O que deveria ser os melhores dias possíveis, viraram um inferno. Mal fechou uma semana e recebemos outra visita. Até achei que fosse alguém da família mas não. E sim o tal James Stone, um jornalista ruivo, galês e colega de Edmund.

Não tenho nada contra os dois serem amantes e tal mas precisava Ed ter me ignorado por completo? Durante o resto da semana?  Meu único consolo foi ouvir Os Monkees na vitrola do quarto. A próxima banda que ia trazer na faculdade eram justamente eles. Porém, como fui demitida automaticamente, isso não poderá ser feito.

E a semana se passou arrastada. Ninguém acordou cedo. Arrumei calmamente as malas e deixei uma carta na mesa. Abri com cuidado a porta e caminhei um pouco até encontrar um táxi e embarcar. Cheguei à estação de trem e paguei minha passagem para retornar a Oxford.

Embarquei no trem e esperei. Tive medo que Edmund viesse atrás de mim. Ou Marianne. Ninguém veio. Por um lado, alívio. No outro doeu meu coração. Outra vez a música dos Monkees tocou e justamente a mesma durante a semana na Escócia.

I wanna be free
Like the bluebirds flying by me
Like the waves out on the blue sea
If your love has to tie me
Dont try me--say goodbye

I wanna be free
Don't say you love me, say you like me
But when I need you beside me
Stay close enough to guide me
Confide in me, whoa whoa

I wanna hold your hand
Walk along the sand
Laughing in the sun
Always having fun
Doing all those things
Without any strings to tie me down

I wanna be free
Like the warm September wind, babe
Say you'll always be my friend, babe
We can make it to the end, babe
Again, babe
I've gotta say

I wanna be free
I wanna be free
I wanna be free...

Como pode a voz do Davy Jones ser tão verdadeira e suave? E ainda me fazer chorar? Precisava decidir o que fazer da minha vida. Não posso continuar me remoendo com coisas do passado e continuar desprezando pessoas que me fizeram mal e brigar comigo mesma sobre Ed e Marianne. Deixe-os viver sua vida!

A semana começou desta vez melhor. Minha mãe e minha tia me enviam uma carta avisando sobre o retorno na sexta. Ok e como é segunda-feira, tenho muito tempo para repor minha vida. Arrumei a casa e dei uma volta na vizinhança. E várias semanas se passaram.  Visitei a universidade e me deparei com uma cena preocupante. Era Marianne, usando uma blusa branca e com os dizeres “SOU UMA VADIA GRÁVIDA”.

O pessoal a maltratava e dizia coisas de baixo calão. Teve uns que gritaram algo do tipo:

-- Hey, Marianne! Cadê sua comunista russa?

-- Avisa o papai pra ele te tirar da universidade! – berrou uma menina, usando jaleco feito médico. – Ah, lembrei! Ele te expulsou de casa.

E mais risos e escárnios. Aquilo estava demais. Puxei Marianne e a levei para longe. Rasguei a blusa e a levei para a república onde eu costumava morar.

-- Foram eles que te colocaram isso? – perguntei.

Marianne negou mas apontou para o pessoal de Direito e Medicina. Aliás todos olhavam com reprovação para Marianne. Chegamos na antiga moradia e um aluno que nunca vi já nos recebeu com grosseria.

-- Não queremos uma puta barriguda na república!

Não deixei o fulano fechar a porta na minha cara.

-- Eu quero falar com Mike! – exigiu veemente. – Agora!

-- E quem é você?

-- Sou Rosie Donovan.

Quando falei meu nome, recuou um pouco e chamou Mike. O resto da turma de amigos surgiu e me abraçaram.

-- Ah, Rosie! Estamos felizes em te ver! – disse Mary, mais animada.

-- Eu rezei tanto para você voltar para nós. – um certo Peter chorou e me deu um abraço.

-- Pessoal! – falei e trouxe Marianne para perto. – Eu sei que não estudo mais aqui, mas, se ainda se importam comigo, por favor, peço que cuidem da Marianne e sejam compreensivos. Façam por mim.

-- Eu só trago problemas. – disse Marianne, triste. – Só isso que sei fazer.

Um deles quase respondeu mas se calou.

-- Olha, Rosie. Nós podemos deixar a Marianne ficar aqui. De boa. Mas sobre o que aconteceu... Não tivemos culpa. – se defendeu Mike.

-- Tudo bem. Mas ela fica aqui. Até se formar. Pode ser?

Todos concordaram. O resto do tempo passei com aquela turma e Marianne foi-se pro quarto. Enquanto o lanche não era preparado, fui conversar com ela no quarto.

-- O que aconteceu?

Mari guardava os livros e parava de chorar. Me encarou, sério.

-- Eu passei mal. Fui para o hospital da faculdade. Os exames foram feitos e... estou de três semanas e na saída um aluno me reconheceu...

Entendi tudo. Já não bastava Marianne ser vista como um “Judas”, agora com a gravidez, se complicou tudo. Me pergunto onde está o Ginger. Não acredito que ele seja tão canalha assim.

-- Ginger sabe disso? – perguntei, brava. – Ele precisa saber.

-- Bem... eu...

Neste momento outra visita acontece. Reconheço ser do vice reitor Cornelius Oak. Mike me chamou e fiquei diante dele.

-- Srta. Donovan, podemos conversar na minha sala?

Que maravilha! Decerto os mais extremistas me denunciaram por defender Marianne e agora vão me punir por visitar meus amigos. Estranhei que durante o caminho, a sala do vice era mesmo do reitor. Ele não estava lá, o que é bom. Não terei de encarar aquele rosto inchado de bebida. O vice parecia um pouco Churchill e se serviu de conhaque.

-- Já deve saber, Srta. Donovan, que o antigo reitor renunciou o cargo.

-- Hã... Não. – estava surpresa.

-- Devido ao escândalo de corrupção, estou no cargo interinamente. E pergunto para você se ainda deseja retomar seus estudos?

Meu sonho se tornou realidade. Como eu desejava voltar estudar e concluir o curso.

-- Wow! Sim! Eu quero! – respondi com tamanha vontade que queria abraçar alguém.

-- Então, pode ir à secretaria, refazer sua matricula e pegar seu novo horário!

Por sorte eles ainda tinham meus documentos e foi mais tranqüilo. Os funcionários praticamente sorriam pra mim. Peguei a lista de livros e horários novos do curso de História. A primeira coisa que fiz foi comunicar para o pessoal da república. Todo mundo vibrou como se fosse em 66 com os quatro gols da Inglaterra na Copa. E na hora do jantar uma maravilha. Marianne não desceu. Todo mundo seguiu para uma festa num dos prédios da universidade e outros para um pub. Fiquei na república, cozinhando algo bom pra Marianne. Levei o jantar para o quarto.

-- Oi! – entrando com a bandeja e deixando na mesa.

-- Olá. – Marianne chorava e saiu da cama, ela vestia uma camisola e ouvia Rockin’ Ramrods.

-- Trouxe seu jantar. Eu mesma fiz conforme o que você gosta.

-- Oh, muito obrigada. – se ajeitando na mesma e depois me olhando. – Sei que me odeia, mas preciso de ajuda.

Já entendi tudo. Marianne explicou que todos da sua família agora a odeiam. Inclusive Edmund. Logo ele, o irmão protetor, agora se voltou contra a irmã.

-- Ele me culpa por você ter ido embora. – justificou Marianne.

-- Marianne, me desculpe o que vou dizer. Mas fui embora por causa dele! – respondi, indignada. – Ele parou de me dar atenção no exato momento que aquele galês idiota apareceu. Eu fui ignorada. Então, ele foi o errado e não você.

-- Eu sei mas Ed acredita que fui eu. Me acusou de falar algo pra você que a fez ir embora. – me abraçando e chorando. – Me perdoa por tudo e por ser tão horrível. Por ter provocado tantas coisas ruins na sua vida.

-- Seu único erro foi não ter me contado sobre aquela russa antes do nosso envolvimento. Mas te perdôo mesmo assim.

-- Você e a Olívia são as únicas que sabem. – pausou um pouco e depois seguiu. – Estou pensando em tirá-lo.

-- Tirar uma vida que você está gerando é arriscado demais. Olha, quando ele nascer, você vem morar comigo em Liverpool. E depois compramos um apartamento em Londres. Seremos uma família.

-- Tudo bem...

Enquanto Marianne jantava ouvi a campainha tocar. Fui atender e a pessoa que vi... Era Edmund.

-- O que quer? – perguntei.

-- Pedir desculpas por você ir embora assim. – nem convidei o folgado e já entrou no alojamento. – Seja lá o que Marianne tenha dito não é verdade.

-- Em primeiro lugar, Marianne não teve absolutamente nada a ver com minha saída e sim aquele galês filho da puta desgraçado! – xinguei e continuei, mesmo com a irmã dele ouvindo tudo na cozinha, escondida.  – Se queria que ele viesse junto, era só ter me avisado. Eu perdi a viagem de minha tia e minha mãe por sua causa! E chega, Edmund! Já estou saturada de homens como você. O Lennon traiu a esposa e agora está com uma japonesa horrível, Clapton é outro que é chegado numa japa. Tanto que terminou comigo, não posso ficar com George Best porque ele é um canalha de marca maior e você é mais complicado do que eu. Seu pai me ferrou!

De repente tudo balançou... Tudo escureceu. Acordei no hospital com um gosto horrível na boca e deitada numa cama branquinha. Ao meu lado está Marianne me observando.

-- Oh Rosie. – me abraçando. – Fiquei preocupada.

-- O que aconteceu comigo? – sinceramente não me lembrava.

-- Você brigava com meu irmão, chorou tanto que se desequilibrou, vomitou e desmaiou. Nós te trazemos aqui com a ajuda da Ana.

-- Como é?

-- Ana estava bem na frente do alojamento porque veio me visitar e aconteceu isso.

Queria questionar se ela voltou com a comunista, mas me poupei disso. Independendo da resposta, perdoei Marianne contudo não prometi nada se voltaria pra ela, exceto na amizade. Permaneci na cama até o doutor me dizer uma novidade que jamais imaginei que pudesse me acontecer: estou grávida.

Estava tão envolvida nas idéias que nem critiquei quando Ana se ofereceu para nos levar pro alojamento. E pior que ela entrou no apartamento. Entrou na cozinha, nos outros cômodos e nos quartos. Subi as escadas e abri a porta, ameaçadora:

-- Muito obrigada, abusada. – agradeci mesmo xingando e notando o olhar dela ao redor. – O que foi desta vez?

-- É que... Eu estudei aqui alguns anos atrás e fiquei justamente neste quarto.

O enjôo tomou conta de mim. O quarto que dormi desde julho de 65 pertenceu à russa safada. Durante todo esse tempo guardei coisas e segredos naquele quarto e descobrir que era da Ana só aumentou o repugno no meu corpo. Imediatamente precisava sair daquele lugar. Passei mal no banheiro e chorei. Pedi expressamente pra ficar sozinha.

Ali pensei em mil coisas. Uma delas é como contarei pra minha mãe que estou esperando um bebê e do “meu primo”? A outra idéia era abortar. Nunca quis ser mãe e não vai ser agora. Lavei o rosto e sai do banheiro. Ana tinha ido embora. Marianne apareceu.

-- Rosie...

-- Estou bem. – falei.

Trocamos o velho olhar da adivinhação. Na realidade nem é preciso adivinhar já que conversou com o médico e ele contou tudo. Ela tocou minha barriga.

-- O que pretende?

-- Tirar esse bebê. – respondi com raiva.

-- Mas você mesma não disse que não vale a pena tirar? – disse, me pegando na palavra. – Por que agora vai abortar?

-- Eu não quero carregar um bebê do seu irmão!

-- Você dá a luz o filho do Edmund e ele cuida. Você não precisa participar disso.

Se o bebê é meu filho, como mãe eu devo participar. E foi o que fiz. Disse para Edmund e ele se alegrou tanto que nem viu o meu descontentamento.

-- Vamos nos casar! – disse Edmund, em tom de grito. – E cuidar do nosso filho.

-- Pare! – coloquei a mão na frente. – Eu recuso. Não quero casar com você. Só quero que fique perto de mim, cuide de mim até que nosso filho nasça. E você vai cuidar dele.

-- Por que fala assim, Rosie? – Edmund não acreditou que eu fosse assim.

-- Bem, deve saber que não quero ser mãe. E esse bebê só veio atrapalhar meus estudos. E também vou me mudar daqui.

-- Seus amigos não te aceitam?

-- Não. – respondi secamente. – É porque eu não quero mais ficar aqui. Este lugar passou a me enojar depois que descobri que Ana morou aqui e dormiu justamente onde dormi desde julho de 65. Não quero nada que me ligue àquela russa!

-- Eu vou alugar um apartamento para nós vivermos juntos. – disse Edmund, com bons planos. – Eu, você e minha irmã.

Está bom demais pra ser verdade, mas faltava uma coisa: o amante galês.

-- O galês ruivo vem junto? – perguntei.

Edmund se calou e tentou responder enrolado e exigi.

-- Edmund! Te fiz uma pergunta. O galês vem junto ou não?

-- Não! Jim terá o canto dele. Ele está em Nova Iorque e ficará bastante tempo.

Terminei de arrumar as malas e tomei água. Voltei a falar com calma no entanto alterando à medida que mencionava o amante que estragou minha viagem.

-- Melhor assim. Enquanto eu estiver carregando seu filho, exijo no mínimo aquele filho da puta de cabelo vermelho longe daqui! E agora quem sabe ele arranje outro e te esqueça.

Não sei se isso é a gravidez ou a raiva que tinha por Edmund, mas confesso: estou adorando humilhá-lo. Outra vez me despedi dos meus colegas e continuei freqüentando as aulas até o quarto mês e tranquei. Toda aquela situação de gravidez era complicada. Nem trabalhar podia mais e oficialmente me demiti com decência.

No meio disso tudo me dei conta de uma coisa: não tinha mesmo amigos. As únicas eram minhas amigas de infância, Suzan e Jane. E tem a Marianne. Ela visitava Anastacia todos os dias e ela também retribuía as visitas. Ana trazia pacotes de fraldas para Mari e outro para mim. Recusei.

-- Dê para Marianne. – pedi.

-- Mas comprei pra você. – confirmou Ana, gentil. – Chelsea e eu...

-- VÁ PRO INFERNO VOCÊ, CHELSEA E AS FRALDAS! – joguei os pacotes contra Ana.

-- Tudo bem, eu dou para ela...

A vida naquele apartamento se tornou meu segundo inferno, o primeiro foi na Escócia. Os meses foram avançando e foi aí que descobri que Ed estava tendo um caso com Alice, a irmã do galês Jim. Ela só parou quando um dia, de forma divertida, me apresentei pra ela, com meu barrigão e dizendo com muito “orgulho” que é do Edmund. Depois era só choro. Chorava toda hora, não procurava Marianne por teimosia, dormia sozinha, sofria pacas. Desejava que alguma coisa acontecesse pra não ter aquele bebê.

Todo tempo relembrei como eu era. Uma garota vinda de Liverpool, sozinha e pra estudar Direito. Conheci Marianne no primeiro dia e quando fui procurar um lugar pra ficar, surgiu aquele alojamento. Ela também foi para lá e ficamos mais amigas. Meses depois ganhei um emprego, aprendi a lidar com publicidade e música e virou diversão. E veio numa xícara de chá o meu segundo amor, Clapton.

Com o tempo achei que ia durar... Mas foi um lindo engano. Ele terminou comigo. Marianne se tornou mais do que uma amiga. Foi alguém que amo como pessoa e mulher. Por que ela tinha de beijar a russa se era despedida? E por que não me contou antes?

Tantos questionamentos... Encontrei Mari no outro quarto, olhando e chorando pra uma foto do Ginger. Saudade dele. Abracei-a e fui tomada pela pena, remorso e tristeza.

-- Eu parei de te odiar. – falei. – Mas estou de coração bem partido.

Ela compreendeu e novamente nos abraçamos. Prometemos ficar juntas, independendo do que fosse. Marianne nunca ia me deixar e eu não vou abandoná-la.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Laços do Blues (11º Capítulo)

Olá pessoal!
Tenham uma boa noite e fiquem com capítulo tenso de Laços. E tá mesmo tenso!



Capítulo 11: Layla

Rosie POV

Uma descarga de 10 mil voltz me atingiu quando o vi pela primeira vez. Ele era tão diferente. Forte, alto, de cabelos pretos, ele era uma perfeita mistura de Clark Kent com uma escultura de Michelangelo. O que não sabia, ou talvez soubesse, era que Edmund faria parte da minha vida.

Parece estranho o que vou dizer, mas não consigo parar de pensar no meu namorado. Mesmo ter comunicado minha ida para Shefield com Marianne, ele nem sequer fez objeção ou demonstrou ciúme. Acho que ele desconfie que eu esteja com John Lennon ou ele tenha arranjado uma groupie por aí. Sendo a segunda opção está bom, eu perdoaria. A verdade... É que tudo estava mudando. Enviei uma carta para ele no meu terceiro dia na casa dos Jones.

Conversei com todos ali, me senti bem. De fato a família é bem tradicional. A única parte é que fico trancada no quarto de Marianne, seja lendo ou ouvindo música na vitrola dela. As vezes eu escrevia meus ensaios e meus pensamentos, já que Marianne saia com a mãe e os irmãos. Tecnicamente eu me sentia e ficava sozinha. Meu único consolo eram as noites. Mari e eu dormíamos mas não fazíamos sexo. Talvez por medo dos pais ouvirem contudo ela não me representou isso. Notei que Mari andava se comunicando com uma tal de Anastacia via carta. Até aí não me importei.

Quando chegou sábado, a sra. Jones me chamou para costurar. Isso mesmo. Costurar. Ela me ensinou a costurar na máquina. Adorei isso.

-- Rosie, eu já volto. – Disse Helen, se retirando. – Vou pegar mais tecidos no sótão.

Ajeitava ali as roupas costuradas e aí vi Marianne se arrumando.

-- Onde você vai? – Perguntei.

-- Errr... – Mari parecia um pouco constrangida. – Eu vou encontrar uma pessoa.

Ela saiu porta fora. Deduzi que fosse Ginger. Pelo menos ele era decente. Gosta de verdade dela a ponto de vir até aqui pra vê-la. Ou melhor, foi o que tinha pensando.

A mãe de Mari demorava e aproveitei disso para sair um pouco. Segui Marianne e vi que ela entrou numa lancheria e encontrou uma mulher, a considerar pelos traços russos, para mim era desconhecida. Entrei junto e fiquei numa mesa meio perto delas.

-- Saudades de você, Anastacia! – Mari cumprimentava ela e... a beijava???

Não pode ser. Ela beijou aquela mulher. E o nome dela é Anastacia? A mesma da carta? E aquele papo que me ama? Que nunca ficou com nenhuma garota na faculdade? Me retirei dali o quanto antes, bem consternada. Quando entrei na casa dos Jones, trombei com Edmund.

-- Olá, Rosie! – Ele sorriu, tão gentilmente e me segurou. – Perdão, eu não vi você. Mamãe ficou preocupada e eu disse que você pode ter ido caminhar por aí.

Meus olhos estavam cheios de lágrimas.
-- Rosie, está tudo bem?

-- Eu quero ir pro quarto!

Entrei no quarto de Marianne, guardei minhas coisas e fiquei na cama de beliche, engolindo o choro e me acalmando. Só consegui tal coisa quando pensei que no domingo eu ia pegar o trem e partir para Liverpool. Ao menos uma coisa boa. Ouvi batidas na porta. Abri e era Edmund, trazendo uma bandeja contendo um suco de laranja e sanduíche.

-- Eu fiquei preocupado. – Ele disse, entrando e colocando na mesa a bandeja. – Aconteceu algo?

-- Saudade da minha mãe. – Menti. Odiaria contar ao Ed sobre eu e Mari e principalmente por ser enganada por ela. – Não há de ser nada. Amanhã vou pegar o trem pra Liverpool.

-- Você não gostou de ficar aqui?

-- Não é isso. – Tentei contornar e sorri. – Sou eu. Adorei conhecer todos vocês. De verdade. Mas combinei que ficaria aqui uma semana.

-- Então por que não fica mais uma semana? – Ele também sorria. – Ou melhor, um mês. As férias das universidades duram dois meses. No mês que vem, aí você volta para Liverpool. Por favor, fica, Rosie.

Odiava essa insistência e falei:

-- Ok, eu fico.

Comi um pouco do sanduíche e bebi o suco. Agora só restava esperar a noite de dormir. Fiquei lendo o livro infanto juvenil da minha amiga, Suzan Hardison, chamado As Aventuras de Johnny Finn. Enquanto lia, Marianne apareceu no quarto, sorridente e retirando a roupa.

-- Oi, cabelos de fogo. – Ela tentou me beijar e eu recusei. – O que foi?

-- Nada! – Respondi secamente. – Estou lendo.

Mari tirou meu livro das minhas mãos e eu fiquei de braços cruzados, séria.

-- Quem é essa tal de Anastacia? – Questionei.

-- Errr...

-- Você disse que nunca conheceu alguém. – Comecei a chorar. --Você está mentindo pra mim e eu fui mesmo uma burra em acreditar em você. Acabei dizendo pro seu irmão que ficaria 1 mês aqui. Mas acho que vou embora amanhã.

-- Quando viajei pra Londres no verão passado, conheci Anastácia e suas amigas, fiquei na casa dela e do irmão, acabei ficando com ambos. – Marianne justificava e chorava. --  Mantivemos contato por carta, mas hoje conheci sua nova amada. Aquele beijo que você viu foi o último que dei nela. Se quiser ver as cartas eu te mostro. Não tenho mais nada com ela, é sério, hoje foi só um adeus e sobre não ter conhecido ninguém na faculdade que me encantasse é verdade. Você foi a única Rosie por favor, me perdoe e fique comigo.

-- Amanhã de manhã pegarei o primeiro trem para Liverpool. – Me levantei para ir para a porta mas Marianne me parou e trancou. – Saia!

-- Não!  -- Ela me prensou.

-- Saia de cima de mim!

-- Você vai me escutar! Eu sei que eu errei, eu sei que eu sou uma filha da puta, uma desgraçada, mas, por favor, me perdoe e fique. Pelo o que tivermos e o que vamos ter. Você é o meu hoje, meu passado, meu futuro, o meu mundo eu amo você.

Não respondi nada e fui dormir. Não a toquei e rejeitei seus toques. Mas a noite eu não resisti. E isso foi meu pior erro. Quem me garante que ela não esteja sofrendo por essa tal de Ana e agora faz amor comigo pensando que eu sou ela?

Quando amanheceu, me soltei dos braços de Marianne e peguei a chave que ela deixou na mesa. Abri com cuidado a porta e peguei minha mala. Por sorte, ninguém me viu e a porta estava aberta. E o universo conspira ao meu favor. Embarquei num táxi e cheguei rápido na estação. Embarquei no trem rumo a Liverpool. E só esperei.

Peguei um livro na mochila e comecei a ler. Ouvi umas risadas na outra cabine. Sai um pouco e advinha o que vejo? Estavam ali ao lado as jornalistas da revista Rolling Stone e uma delas é... Anastacia! Então a russa é da equipe delas?

Voltei para minha cabine, indignada. Liguei o rádio e aumentei o volume, para não ouvir aquelas risadas. Faltava poucos minutos para o trem sair da estação e alguém entrou na minha cabine.

-- Você! – Era Edmund, usando um abrigo, tênis e um blusão da Adidas.

-- Enquanto corria te vi indo embora e entrei em casa peguei meu carro e minha carteira. E te segui.

-- Vai embora. Eu preciso voltar para Liverpool. Minha mãe precisa de mim! – Enrolei Edmund, mas não adiantou.

-- Eu sei o que aconteceu. Marianne me contou, ela me contou tudo e está no carro, me esperando inclusive.

-- Odeio esses comunistas. – Suspirei pesadamente e lancei um olhar para a cabine ao lado, com as garotas e “Ana”. --  Olha, não me interessa mais. Eu já paguei minha passagem, eu dei para o bilheteiro e agora quero ficar na cabine em paz, esperando parar na estação de Mersey e se Marianne tem ainda amor por mim, ela deve respeitar minha decisão.

Ed me mostrou o bilhete.

-- Vou com você pra Liverpool. Teremos bastante tempo para conversar.

-- Tudo bem. – Dei de ombros e me ajeitei. – Mas não quero ouvir mais nada sobre Marianne e aquela mulher, que inclusive está no vagão ao lado do meu.

-- Quero ficar com você e além do mais o The Who está na outra cabine com elas. – Ed apontou o vagão e vi quatro rapazes entrando. Era mesmo o grupo.

-- Que pena! – Ironizei e ainda armei uma mentira.-- Achei que quisesse já que a Mari me falou que você pegou a Ana num menage a trois.

-- Já fiz um menage com ela e com irmão dela na faculdade mas isso já faz um tempo.

O que é pior? Ver sua amada beijando outra e dias antes dizer que te amava ou saber que a pegadinha que inventou pra enganar Edmund é verdade?

-- Eu tava jogando verde. – Admiti. --E agora eu quero que saia do meu vagão!

-- Não! Sério, eu fiquei com irmão dela e fica difícil porque eu bilhete é dessa cabine. – Ele mostrou o bilhete.

-- FORA BASTARDO! – Peguei Edmund pelo colarinho mas ele é forte demais.

-- Não vai me tirar daqui eu vou ficar! Me conta o que aconteceu. Quero saber o seu lado da história e sei que você viu ela beijando a Anastácia. Mari me contou e que está querendo matá-la. Acredite, ela apanhou hoje de manhã.

-- Por que? – Me espantei. Será que ele soube da bissexualidade da Mari?

-- Papai bateu na Mari porque ele soube que ela beijou o Christopher o comunista. Se isso te serve de consolo ela está com dois olhos roxos mas queria te dizer,ela te ama de verdade.

Já vi muitos pais baterem nos filhos por conta de mal criação e assuntos mais relevantes mas isso? Por conta de política? Minha mãe nunca seria capaz disso e nem com a Vivian.

-- Seu pai bateu nela por que ela beijou um...comunista? – Ainda não acredito nisso.

-- Sim, assim...ele não é comunista,o pai dele é e meu pai não gosta dos russos. Mari falou que havia beijado o Chris e aí ele socou os dois olhos dela. Talvez ela apanhe mais quando chegar em casa, hoje não vou poder defender ela.

--E porque está perdendo tempo comigo? Faltam cinco minutos pra esse trem sair. Vai lá e proteja sua irmã! – Incentivei Ed.

-- Já disse que vou com você serei seu companheiro de viagem.

-- E vai deixar sua irmã sendo esfolada viva por seu pai intolerante?  Se fosse por conta da sexualidade eu entenderia.

Ed se calou. Algo me diz que ele também está jogando verde.

A vontade que tinha era de entrar naquela outra cabine e jogar na cara da tal Ana que ela é uma comunista enganadora e sem coração e que por causa dela e do irmão Marianne vai ser espancada até dizer chega pelo pai. Definitivamente, eu fui enganada por ela e agora... está pagando por isso. Faltavam poucos minutos para o trem sair e eu peguei minha mochila e minha mala e disse:

-- Vamos pra sua casa. Mas ficarei até terça-feira!

Edmund e eu saímos da cabine mas antes eu cruzei ali onde estavam as garotas da Rolling Stone. Abri a portinha e encarei todas. Felicity McGold, uma das garotas que me  dou bem, sorriu para mim.

-- Oi, Rosie!

--  Oi, Felicity. – Eu a detive. – Por favor, não saia da sua cadeira. Meu assunto aqui é com a “Anastacia”!.

Os olhares se voltaram para ela e instaurou um silencio.

-- Estou aqui para dizer que estou saindo do trem e agradecer você por me separar da Marianne Jones. Eu vi vocês ontem no café. Mari contou toda a verdade mas não acredito nela. Então, agradeço por isso. Vocês podem ficar juntas. E grito para todos o quanto o comunismo vai dominar graças a você, sua comunista maldita!

E saí do trem, sem que alguém me mandasse. O que não contava era que os passageiros reagissem negativamente.


Nora POV

Já vi Rosie sendo negativa com Marie e desta vez a atenção voltou para Ana. Ela se calou e quando Fefe ia fechar a porta da cabine, um passageiro nos abordou:

-- Com licença, moça, você é comunista?

-- Eu não sou. – Respondeu Felicity.

-- Eu perguntei para aquela ali. – Apontando para Ana.

-- Bem... Eu.. – Ana não terminou de responder, pois o tal individuo pegou o livro das mãos dela, chamado Ganhando meu pão de Maximo Gorki.

-- Comunista! Sua stalinista! vou chamar o policial daqui pra te tirar daqui e te mandar pra cadeia que é o seu lugar! – Berrou o passageiro.

E pra piorar, Rosie gritou para todo trem.

-- TEM UMA COMUNISTA NESTE TREM, NA CABINE 32!

E todos nos hostilizaram, mesmo sabendo que isso tudo é pra Ana.

-- Não estamos mais seguros com esses comunas! – Disse uma senhora, abraçando o filho.

-- Porque não cuidam de suas vidas? Nos deixem em paz! – Fefe defendeu Ana e expulsou o passageiro da nossa cabine.

-- Esses comunistas vão dominar o mundo e comer nossas crianças no café da manhã! – Disse um senhor de idade, segurando a bengala e jogando contra Fefe, atingindo no braço.

-- Senhorita, deve se retirar desse trem agora! – Ordenou o bilheteiro, aparecendo na nossa cabine e contendo a multidão revoltada.

-- Por favor senhor, estou viajando a trabalho, sou jornalista. – Ana mostrou as credenciais e mesmo assim não deu em nada. Pelo contrário, por um detalhe tolo, ela usava um vestido cor de vinho, o que contribuiu para a revolta.

-- Essa desvirtuada está querendo fazer uma revolução no trem! – Gritou um passageiro.

-- Ela vai aliciar nossas filhas!

-- Deve ser uma prostituta mandada para nos espionar!

Ana tentava argumentar mas era impossível. Fefe e eu falamos.

-- Escuta, senhor. Não vejo motivo algum para Anastacia ser expulsa.

-- Ela é uma jornalista, não política ou espiã. – Eu disse.

-- E outra coisa. Se expulsar nossa amiga, nos expulse também! – Disse Marie.

Foi uma péssima fala, Marie, eu pensei.

-- Fora daqui! – O bilheteiro agora nos xingava e nos expulsava. --Fora todas vocês!

-- Comunistas! – Berravam todos os passageiros. --Suas putas! Vão pra Cuba!
Felicity socou o bilheteiro e mais dois guardas nos tiraram a força do trem, juntamente com nossas malas. Alguns passageiros até cuspiram na cara de Ana e Felicity e continuaram a nos ofender, mesmo estando na estação.

-- ESTÃO TERMINANTEMENTE PROIBIDAS DE EMBARCAR NESTA ESTAÇÃO!

Assim que o trem foi embora, fomos para um café. Ana chorava e era consolada por Marie. Nora e eu fomos ao banheiro. Me lavei e voltei junto com ela para a mesa.

-- Eu juro, Nora. Se não fosse o trabalho de cobrir o show,  eu não colocaria mais os pés aqui. Nesta cidade imunda infernal! – Fefe bateu a mão na mesa, despertando atenção.

-- Tenha calma Fefe, eles que são muito conservadoras. – Falei, abraçando minha tigresa.

-- Ligou para os seus pais, Ana? Ou pro Enty? – Perguntou Marie.

-- Acho bem viável ligar pra Chel  ou pro Floyd. Ele deve estar aqui. – Felicity acreditava que Chel ou Floyd O’Malley estivessem em Liverpool.

-- Meus pais estão longe daqui, Chelsea e Floyd estão na França. Enty está no país de Gales pros shows a única pessoa que está mais próxima é o Eric.

-- Mas Ana... o Clapton é namorado da Rosie. E convenhamos, ela não vai gostar de saber disso. – Fiquei seriamente com medo da ruiva outra vez cismar com ela.

-- Ou ele ou Brian Jones os Stones estão em Manchester.

-- Ok, liga pro Clapton. Depois a gente pensa sobre o que fazer com a Rosie. – Resignou-se Fefe.

Cerca de uma hora depois, Eric Clapton aparece. Explicamos tudo o que aconteceu e mesmo assim nos prestou ajuda. No carro, Ana pediu:

-- Não conte para Rosie sobre estar nos ajudando.

-- Por que? Ela está brava por nossa causa?

-- Ela sabe sobre nós?

-- Sim. – Ele confirmou. – Ela aceita isso.

-- Mas, é sobre outra coisa.

Ana explicou ao Clapton sobre seu romance com Marianne e o fato de Rosie ter descoberto tudo.

-- Bom, então, isso significa uma coisa. – Ele suspirou e disse. – Ela vai me odiar também, principalmente por que vou terminar com ela mas não por esse motivo. E sim... Porque conheci outra.

Fiquei chocada. Prevejo muitas coisas ali...


Rosie POV

Quando vi Marianne daquele jeito parecia que acertaram-me com uma pedra no peito. Chegamos na casa dos Jones em pouco tempo e lá encontramos Marianne, com os olhos roxos mesmo, os dois olhos, o maxilar com hematomas, lacrimejando e segurando bolsas de pedras de gelo.

-- Oi, Rosie. – Ela tentou sorrir mas doía o rosto. – Que bom que  voltou.

-- Minha nossa! – Ajudei-a nos curativos. – O que houve?

Neste momento, o pai de Mari chegou em casa, trazendo várias sacolas com compras e encarou Mari.

-- Isso que dá se meter com comunistas, menina. – Ele me olhava, bem ameaçador. -- Eu aviso sempre Edmund pra não manter contato com aquelas pessoas mas ele não me escuta!

-- Marianne nos contou que saiu ontem pra ver aquele rapaz, Christopher Romanov. – Justificou Helen, a mãe. -- E bem,Thomas descobriu e Marianne acabou apanhando.

Notei que Edmund ficou quieto e obviamente não gostou do que o pai falou. Ele seguiu para a cozinha e serviu um copo d’água pra mim e pra Mari. Questionei baixinho.

-- Você contou sobre nós?

-- Não. – Ela responde com dificuldade. --Disse que você abomina meu beijo com Christopher por ele ser filho de um russo que papai odeia e por isso você foi embora
mas se falasse sobre nós duas, eu claramente estaria a sete palmos do chão.

-- Papai tem que se entender com Alexei Romanov ou essa guerra irá piorar. – Disse Edmund, preocupado.

-- Eu não aprovo por querer me proteger. Mas quem deveria ter apanhado era a Ana e não você eu...—Por dentro espumava de raiva daquela russa. --A chamei de comunista hoje no trem.

-- Você fez o que? – Mari abriu os olhos.

 -- Eu gritei pra todos os passageiros que Anastacia é comuna!

-- Ela foi presa? Bateram nela?

-- Não sabemos,telefonarei a Londres pra saber. – Edmund se prontificou na hora.

-- Espero que ela morra! – Expressei minha raiva.

-- Estou com tanta dor que não consigo ter reação. Achou que vou me deitar. Ed se você quiser ficar com o meu quarto fique a vontade, vou estar no quarto da Olívia e
Rosie, minha mãe preparou o quarto do Ed pra você se não se importar de dormir perto da bandeira do West Ham é claro.

Mari saiu caminhando no corredor, quase mancando.

-- Está vendo? – Me irritei para Edmund e ele me olhava -- Onde está o tal amor que ela tem por mim, se ela se importa com aquela coisa esquisita comunista? Edmund, Marianne me enganou legal. E eu cai feito patinha nesta história.

O que não sabia era que Mari voltou pra sala, trazendo um cesto cheio de margaridas e ela sabe que além das rosas, gosto de margaridas.

-- Eu as colhi depois que papai me bateu por favor me desculpe.

Aí notei que o nariz de Marianne sangrou e rapidamente Edmund e eu a socorremos, deixamos sentada na cadeira e com a cabeça inclinada pra trás, numa forma de estancar a hemorragia nasal.

-- Obrigada, meus amores... – Ela segurou minha mão e a de Edmund. – Está ficando tudo escuro... Acho que vou...

Ela desmaiou e Edmund a levou pro quarto de Olivia. Cuidei durante todo tempo. Mari adormeceu mesmo e eu fui pro quarto de Edmund. Não achei justo que ele fique na sala e então esperei os pais irem pro quarto e eu fui pra sala.

-- Edmund! – Chamei-o. Ed lia um livro de Albert Camus. – Edmund.

-- Ah, Rosie. – Ele guardou o livro. – Aconteceu algo?

-- Quer dormir no quarto? – Convidei-o. – É que me sinto insegura e desconfortável pelo fato de você ter cedido seu quarto pra mim. Por favor?

-- Aceito se não houver objeções.

Então deitamos na cama de solteiro, de conchinha. E o braço forte e musculoso de Edmund transmitia uma proteção sem igual. Quando chegou segunda-feira ficamos normais. Marianne se recuperava aos poucos. Mas nossa relação não era a mesma. Conversava com ela aos poucos contudo logo parávamos de falar. Posso jurar que se não fosse os hematomas, ela me xingaria por ter feito isso. E apesar da culpa, não me arrependi de ter feito isso. Recebi uma ligação de Ginger Baker, avisando que em pouco tempo a turnê vai acabar e irá cruzar em Shefield.

E na terça eu esperei o trem para Liverpool. Antes disso, eu deixei uma coroa de margaridas que Marianne havia colhido pra mim no quarto dela e um bilhete escrito “Me desculpe”.  Edmund me levou lá.

-- Por que você já vai? – Perguntou. – Nós nem saímos.

-- Provoquei muitos problemas. Eu quero ficar um pouco quieta. Preciso definir sobre minha vida, meu namorado, estudos e o trabalho. – Respondi.

Percebi o quanto Edmund ficou decepcionado mas depois...

-- Tudo bem,mas antes de você ir queria lhe dar isso...

Ele me beijou, de uma forma que nunca fui beijada. Era quente, delicioso e tudo de bom. A língua dele, tão atrevida ao mesmo tempo me seduzia e eu adorava mais aquele beijo. Tanto que me fez derrubar a mala, o que me fez desmanchar o ósculo.

-- Me passe seu endereço...quero escrever pra você, ruiva, que me faz lembrar o Hemingway.

Peguei na mochila meu bloco de anotações e a caneta, escrevi meu endereço e telefone da casa da minha mãe.

-- Aqui! – Entreguei o pedaço anotado de papel. – Me dê noticias da Marianne também.

Neste momento meu trem apareceu e embarquei. Horas depois pisei em solo liverpooliano e bateu aquela nostalgia. Os tempos da beatlemania, a amizade longa data com Jane e Suzan, as loucuras. E também a saudade de minha mãe e minha irmã. Estar em casa é maravilhoso. Passei o resto do mês em Liverpool e foi na sexta que recebi a visita de Eric Clapton.

-- Eric! – Me surpreendi quando o vi na minha porta e o abracei. – Saudades, meu amor.

-- Rosie, nesses anos que ficamos juntos,te amei muito. – Ele parecia nervoso. -- Mas ultimamente tenho te dizer que não nos amamos mais. Não temos aquele tesão mais
somos como amigos e estou apaixonado por outra pessoa.

-- Está terminando comigo porque maltratei a Ana em pleno trem? – Eu chorei e me senti destruída. -- E quem é ela?

-- Ela é uma japonesa. O nome dela é Nami.

Vou me lembrar desse nome pra quando eu a encontrar, vou matá-la  como farei com Ana, pensei comigo mesma.

-- E sim, fiquei chateado com o que você fez com a Ana. Está certo que ela também errou com você, mas no tempos que vivemos ela podia ser presa.

-- E qual o problema nisso? – Falei, de raiva. – Ela merece ser presa. Comunistas degenerados que só vieram pra contaminar o país. E vou te falar, Eric, eu não me arrependo nem um pouco e se pudesse, eu faria de novo e dez vezes pior! Mas afinal, por que estou chorando agora? Eu devia ficar feliz porque terminou comigo. E agora neste momento, me sinto bem em me livrar de você e ainda pra dizer umas coisas. Que primeiro eu te traí com o jogador do Manchester United chamado George Best e devo confessar que ele é bom de cama. Ele me satisfaz, muito melhor que você, babaca! Você vai se arrepender de ter me trocado por uma japinha qualquer, Clapton e quando esse dia chegar, eu vou jogar tudo isso que disse na sua cara suja! Agora saia daqui! FORA, BASTARDO!

Ele foi embora, chocado. E eu parei de chorar no mesmo instante. Me senti estranhamente feliz. Telefonei para Jane e falei as fofocas. Rimos juntas. Contudo, ficou um vazio. Nada era como antes. E eu sentia falta de Marianne e estava preocupada com ela. Mamãe continuava a mesma e Vivian curtia suas férias escolares ao mesmo tempo planejava ir ao acampamento da escola com Sanae em Dover.

Quando entrou o segundo mês de férias retornei para Oxford a pedido de Benson. Neste retorno apenas Mike estava na república e ajudei na limpeza do apartamento e dos quartos.

-- Ei, eu fiquei sabendo que na estação de trem de Shefield uma jornalista da Rolling Stone foi acusada de ser comunista. – Comentou Mike enquanto lavava o banheiro e eu limpava o chão.

-- Mesmo? – Embora eu já saiba quem seja. – E quem era?

-- Anastacia Rosely.

Disfarcei o sorriso de satisfação e depois Mike disse.

-- Também soube que o reitor vai colocar policiais na entrada da universidade.

-- Mas por que isso? Está havendo muitos assaltos?

-- Ele andou recebendo denúncias que há alunos que são... sodomitas e lésbicas. E também bissexuais.

Agora isso tirou meu sorriso. Fiquei pensando: e se descobrirem sobre eu e Marianne? Não quero que ela seja presa e eu menos ainda. Fiquei em silencio depois desta conversa. Dias depois eu fui na agência e encontrei o Sr. Benson conversando uma moça loira, alta e bem vestida. Gostei muito dela.

-- Ah, graças a Deus que está aqui, Rosie. – Ele me puxou para a sala e fez as apresentações. – Rosie, esta é Chelsea O’Malley, estilista que precisará dos nossos serviços.

-- Olá, miss O’Malley! – Apertei a mão dela tão suave.

-- Olá, Rosie. – Ela retribuiu e confesso que gostei do sorriso dela.

O plano de Benson era simples. O desfile de moda aconteceria no sábado e as roupas de Chelsea estavam metade prontas e a outra parte em andamento. Além de ajudar nas preparações, meu chefe sugeriu para ela me colocar na staff. Ou seja, eu ia costurar. E até vai ser bom pra mim, vou poder por em prática tudo aquilo que dona Helen Jones me ensinou.

Comecei no outro dia a trabalhar e foi incansável. Me virava de tudo quanto é jeito. A própria Chelsea as vezes me pedia para descansar mas não parava. Uma noite eu fiquei costurando umas roupas defeituosas e ela apareceu, me trazendo uma xícara  de café.

-- Tome! – Me oferecendo. – Vai precisar de energia.

-- Obrigada. – Bebi um pouco e voltei a costurar na máquina.

-- Sabe, nunca paramos para conversar sobre coisas amenas...

-- Esse desfile tem tomado bastante do nosso tempo. – Eu comentei.

-- Sim...e você é daqui? Você faz faculdade?

-- Liverpool. Eu estudo História em Oxford. Ao mesmo tempo trabalho na agência, eu gosto do que faço.

-- Eu me formei em história da arte antes de ir estudar moda em Paris.

Entre uma conversa e outra, não vimos o tempo passar e rolou um beijo. Apenas um beijo.

-- Desculpa, Miss O’Malley. Acho melhor eu ir embora.

Sai dali tão rápido que chega a me doer. E quando entrei na república, encontrei Marianne, na sala. Chorando.

-- Ah, Marianne... – Não reagi mais que isso. – Você veio. Seu pai não te bateu de novo, é?

Marianne saiu do sofá e me abraçou. Como ela chorava, meu deus!

-- Hoje quando cheguei no apartamento, eu fui levar o lixo pra rua e encontrei algo. Um cadáver de um menino. Ele... é nosso vizinho ao lado. Foi horrível!

Imaginei o quão foi traumático para Marianne. Eu a consolei, fiz um chá e conversamos. Mari contou que seu pai andava furioso demais, aparente sem motivo. Ela acreditava que estivesse cismado com que ela havia dito sobre Chris e o falso beijo para me proteger. Durante a semana toda fiquei trabalhando bastante, seja na agência, seja no desfile de Chelsea. Só rolava uns beijos e nada mais. Mas ainda quero conquistá-la. No penúltimo dia, fui pegar umas roupas para bordar rapidamente e encontrei Chelsea conversando com uma pessoa. Me aproximei mas não conseguia ver quem era por conta da altura dela. Decidi ir até lá.

-- Chelsea, me diz qual destas roupas eu devo bordar? – Mal terminei de perguntar e vi claramente quem é. Anastacia. – Você?

-- Rosie, esta é... – Chelsea apresentou-me Ana mas não deixei.

-- Eu sei quem é. A jornalista Anastacia. – Segurei muito a vontade de gritar pra todos que ela é comunista e outros adjetivos.

Ana me olhava num misto de medo e pena. E esse olhar... Ainda lembro quando vi naquele dia no café em Shefield.

-- Por que vocês, russos não se contentaram com o leste europeu? China e com Cuba? Por que querem roubar tudo de nós? Por que são tão horríveis? – Expressei minha raiva entalada.

-- Foi você que chamou a Ana de comunista no trem? – Perguntou Chelsea, abismada.

-- Fui eu e ela merecia. Depois do que ela me fez, ela mereceu tudo o que passou. – Solucei e chorei mais ainda. --  Desculpa, Chelsea... Desculpa...

Me retirei dali e me entreguei a tudo. Minutos depois vi Ana saindo, muito triste. Chelsea se aproximou de mim.

-- Calma. – Ela me deu um lenço. – Eu não vou te repreender. Mas bem que queria. Ana me contou tudo. Agora me conte sua versão.

-- Estava em Shefield mês passado na casa dos pais de Marianne Jones. Fiquei uma semana lá. No sábado eu vi Mari saindo de casa e indo se encontrar no café com alguém. Eu a segui e a vi beijando a Ana. Antes disso tudo, eu já ouvi falar dela através de Eric Clapton, o guitarrista. Ele é agora meu ex-namorado. Não chamei Ana de comunista pra culpá-la pelo fim do namoro com Clapton. Eu a culpo por tirar a Marianne de mim. Contudo, ela também tem culpa por ter mentido pra mim e me enganado, dizendo aquela ladainha de que eu a impressionei na faculdade e não ficou com ninguém desde então. Perdoe-me, Chelsea.

-- Entendi agora... – Ela disse, impressionada. -- Ana está indo pra casa dos meus pais em Cambrigde.  Férias compulsórias. Reviraram a casa dela e aí ela terá de se esconder. Os conservadores querem o couro dela.

-- Por que ajuda ela, Chelsea?  Eu te amo, mas acho que depois disso... você nem quer olhar na minha cara.

-- Rosie, eu gosto de você, te acho uma pessoa incrível e maravilhosa! Mas não acho que você me ame, você gosta de mim. Quem você ama mesmo é a Marianne. Ela te completa, ela é a sua alma gêmea. Amo Ana porque ela me completa, ela me entende e me compreende.

-- Você não entendeu o que contei? – Me exaltei mais por ciúme. -- Marianne me enganou. Mentiu pra mim. Eu não a amo mais. Eu tentei te conquistar, te impressionar. Ana é uma sonsa! Ela não sabe de nada. Eu sim. Me dá uma chance... Por favor... Eu posso ser melhor que a Ana.  Por favor...

Chelsea se calou mas me olhava por pena. E esse silêncio era a resposta. Fui embora sem me despedir e voltei pro apartamento e me tranquei no quarto. Surtei de raiva, jogava as coisas contra a parede e exclamava mil palavrões contra Ana.

-- COMUNISTA MALDITA! PUTA! SONSA IMUNDA! – Arremessei o caderno de poesias eróticas de John Lennon e o livro A Spaniard In The Works.

Soquei a parede repetidas vezes a ponto de sangrar os punhos. Ouvi batidas na porta. Eram o pessoal da república e até mesmo Marianne. Não recebi ninguém. No outro dia sai do quarto mas para pegar o kit primeiros socorros e cuidar das minhas mãos. Tive muitas dificuldades em cuidar dos ferimentos. Foi aí que Marianne apareceu e cuidou disso em mim. Não falei nada.

-- Pronto! – Ela terminou de enfaixar meus punhos e sorriu. – O que aconteceu ontem? Todos ficaram assustados.

-- A minha vontade é socar esse lindo rostinho que você tem e depois te encher de beijo. – Respondi.

-- A primeira opção você não tem condições com essas mãos. Mas a segunda... eu aceito.

Nos olhamos por um tempo e agarrei Marianne e a beijei. Bejiei muito forte. Chelsea tinha razão. Eu amo Marianne e ela me completa. Fizemos amor no quarto dela.

-- Eu a odeio mas também te amo. Por que isso, Marianne?

-- Eu realmente não sei, meu bem. Mas amo você mais do que tudo.

Passei o resto das férias em Oxford. Não conversei com Chelsea e acho que ela tenha me esquecido. Não me importei. Na volta às aulas todos ficaram na porta de entrada, esperando se abrirem. Percebi que duas viaturas da polícia pararam em frente a faculdade e desembarcaram os oficiais. O reitor os recebeu bem e depois de uma rápida conversa, apontaram em minha direção. O oficial e o restante o seguiu e realmente na minha direção.

-- Roselyn Anne Donovan?

-- Sou eu.

-- Sou Andrew Marks, chefe de polícia. Você está presa!

De repente dois policias agarraram meus braços e deixaram atrás, me algemando.

-- EU NÃO FIZ NADA! – Gritei para todos. – ME SOLTEM! BASTARDOS! MALDITOS! ME SOLTEM!

Marianne correu até mim, socando um dos guardas mas foi empurrada. Os outros alunos tentaram me salvar e outros brigavam com o reitor. Embarquei na viatura, chorando desesperada. Pensei por um momento que tenha sido Chelsea, pra se vingar de mim por ter causado estrago na vida de Anastacia. Se for ela, nunca a perdoarei e muito menos aquela russa.


Marianne POV

Ainda não acredito que Rosie foi presa. Por um momento achei que fosse por conta do problema com Ana, pois só assim para ela ter sido denunciada e acusada. Contudo descartei a idéia de que ela tenha feito isso mas a amante, Chelsea O’Malley pode ter feito em vingança. Chorei tanto naquele dia e liguei para Ana.

-- Alô?

-- Ana, sou eu. – solucei demais por conta das lágrimas. – Aconteceu algo horrível. É a Rosie... Ela... Ela...

-- Marianne, calma. Ela bateu em você? Te xingou? O que ela fez?

-- ELA FOI PRESA! – berrei em alto em bom som sem me importar se meus colegas de quarto ouvissem. – Ana, seja sincera comigo. Pelo amor que tivemos no passado. Você ou a Chelsea denunciaram Rosie?

-- Não! – Ana se horrorizou tanto quanto eu. -- Jamais faríamos tal atrocidade, mesmo ela me odiando. Passei o dia com Chelsea. Entenda não fomos nós.

Meu desespero que era grande, agora ficou pior. Embora tranqüila por saber que Ana e Chelsea não terem sido as responsáveis, eu descobri quem foi e da pior maneira possível. Aconteceu quinze dias depois após a prisão de Rosie. Nestes dias a universidade protestou contra o reitor e decretou greve. Usamos a imprensa para divulgar nosso manifesto para libertar Rosie.

Num sábado a tarde, telefonei para meus pais e Edmund atendeu. Ele contou tudo.

-- Eu não acredito... EU NÃO ACREDITO! – Ele se irritou. – Mari, ouça o que tenho a dizer. Foi o papai. Ele encontrou seus cadernos contendo... Coisas que você e Rosie fazem. Depois disso ligou para o reitor, pedindo que ela fosse presa. Você podia ter ido para a cadeia, se papai não pedisse para ele não te envolver e colocar Rosie como a ré disso tudo.  Cara, como estou furioso!

-- Edmund... Eu sou a culpada.

-- Mari, o papai desta vez é o culpado. Ele te bateu por conta da mentira que você inventou para proteger Rosie, agora ele sabe sobre o romance de vocês. E pra piorar, Olivia contou também que dormia com garotas por muitos anos e bateu nela. Ela ficou tão furiosa que jurou nunca mais pisar aqui em casa, nem quando tiver filhos. Mamãe está chocada, os gêmeos estão assustados e eu... dei um soco no papai.

Fiquei mais espantada por ouvir esta última parte.

-- Ed...você...

-- Ele me mandou ir embora de casa. Mamãe só chora e eu estou indo aí pra Oxford. Quero ficar perto de você e da Rosie.

-- Tudo bem. Edmund me ajuda. Rosie... Ela está lá, naquele lugar, sabe Deus o que acontece mas... Eu... Tenho medo.

-- Fica calma. Eu falei disso pro tio Oscar. Ele vai para Oxford e defender Rosie. Vai dar tudo certo.

-- Sim. Obrigada, meu irmão.

Quando desliguei o telefone, bateram na porta do meu quarto. Era Mike.

-- Oi, Mike.

-- Marianne, podemos conversar?

A conversa não era tecnicamente com Mike e sim... com todos da república. E me olhavam torto e ódio.

-- Marianne, é meio tenso o que temos para falar. Mas o real motivo é sobre Rosie.

Continuei ouvir o que o pessoal dizia.

-- Estamos bem zangados com que esse reitor preconceituoso e fascista fez. Olha, todos nós entendemos o que se passava entre você e a Rosie e nunca fizemos nada, até porque há pessoas como vocês, que amam também pessoas do mesmo sexo. Nunca aprovamos essa lei idiota.

-- Mike! – Cortei. – Seja mais direto!

-- QUER QUE SEJAMOS DIRETOS, ENTÃO VAMOS FALAR, VADIA! – Xingou Maggie, a intercambista. – O REITOR NOS FALOU QUE FOI SEU PAI QUEM DENUNCIOU ROSIE!

-- Você deveria ter ido presa mas o papai te livrou dessa mas fodeu legal a ruiva! – Peter expressou seu ódio.

-- Então nós votamos aqui, para que você saia deste apartamento! – Mary foi a última que disse.
-- Hey! – Mike se defendeu. – EU NÃO VOTEI PARA MARIANNE SAIR. ELA NÃO MERECE ISSO!

--Mas se esqueceu que aqui funciona na democracia? – Debochou Jane. – Ou seja, o maior número de votos ganha e a aprovação da Marianne sair ganhou.

Não pode ser verdade. Eu, expulsa do apartamento? Por causa do que meu pai fez?

-- Ah, Marianne, mais um motivo pra você sair daqui. – Completou Peter. – Nós sabemos que você teve um caso com a jornalista russa Anastacia Rosely.

-- Que baixeza! Acho que no fundo nunca amou Rosie. Só usou ela enquanto você preferia se deitar com uma piranha comunista!

-- CALEM A BOCA, BABACAS! – Exclamei de raiva. – TROUXAS, IDIOTAS E TAPADOS! VOCÊS, QUE TANTO JULGAM LUTAR PELA LIBERDADE, AGORA AGEM COMO IDIOTAS QUE SOFRERAM LAVAGEM CEREBRAL! NÃO APRENDERAM NADA! SIM, EU ADMITO QUE TRAÍ ROSIE MAS FUI PERDOADA E NÃO ESTOU MAIS COM ANA!

-- Mas isso não é o bastante! SAIA DAQUI, MARIANNE VERONICA JONES OU ENTÃO VAMOS CHAMAR A POLICIA E TE DENUNCIAR TAMBÉM!

Todos ficaram contra mim, menos Mike. Arrumei minhas coisas com a ajuda dele. Mike não foi expulso contudo ele também aprontou suas malas.

-- Você pode ficar, Mike. Só essa vagabunda comunista deve ir embora!

-- Não fico num lugar onde todos são intolerantes! – Ele pegou minha mala. – Vamos, Marianne. Eu te ajudo.

-- Boa sorte pra vocês, perdedores!

Mike e eu seguimos para a casa de um professor chamado Berthold Dameron, do curso de Filosofia. Ele é um professor muito legal e gentil e conhecido por manter um apartamento duplex, onde ele utiliza pra acolher alunos que não tem para onde ir. Bati na porta e ele nos atendeu.

-- Marianne, Mike! O que aconteceu?

-- Professor, fomos expulsos do apartamento. – Justificou Mike. – O pessoal acusou Marianne por ter sido a responsável por Rosie Donovan ter ido presa.
-- E foi você mesmo? – Indagou o professor, espantado.

-- Foi meu pai. Mas eu juro que não tive nada a ver com isso. Meu pai... abomina minha relação com Rosie.

Mike e eu fomos acolhidos e telefonei para Edmund. Agora era só aguardar meu irmão aparecer e resolvermos a situação de Rosie o quanto antes...


Continua...