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sábado, 30 de dezembro de 2023

Drabbles Grindhouse Part One (Trigésimo quinto capítulo)

 Próximo da fila!

35 - How Deep is Your Love

(Extrato de Rush 1)

 Paul Breitner saltou da cama apressado, lembrando de algo a ser resolvido. Mas não era isso e sim a causa era um pesadelo aparentemente estranho. Ele tinha chegado na casa de Anastacia Rosely e foi apresentado para família dela e também aos McGolds e na vez de um deles, houve uma mudança drástica do cenário. Todos sumiram e só restaram ele e o jovem McGold à sua frente. Não era um duelo e mesmo se fosse, não era justo, pois Paul não tinha arma alguma para se defender e tudo que presenciou foi um tiro de escopeta em sua direção que o fez acordar.

 – Paul! – Ana o segurava. – Calma. O que foi?

 – Sonhei que alguém ia me matar.

 – E você lembra quem era?

 Paul lembrava do rosto, mas o nome dele não. Aquele sonho o intrigou e o fez entrar em alerta. Poucos dias depois se acalmou apenas observando sua amada escrever outro livro na mesa da sala.

 – Amanhã vamos conhecer minha família.

 Quando enfim chegou o derradeiro dia da apresentação, ele ficou nervoso e contou toda a verdade. Ana o tranquiliza, dizendo que ninguém faria tal coisa. Os Romanovs e os McGolds por parte do finado Anthony foram receptivos e na hora do almoço, quando todos já estavam juntos, Michael chegou atrasado.

 – Cheguei mommy! – Mickey trazia sacolas de presentes e estava muito animado. – A mona da Louise chegou?

 – Não, mas a Ana chegou e com novo namorado.

 A cena a seguir lembra bastante quando dois inimigos se reencontram depois de muito tempo ao som de uma música de suspense, seguido de um riff de guitarra conhecido.

 Mickey estendeu a mão para ele.

 – Prazer em te conhecer.

 Paul se afasta e o observa em pânico. Naquele instante sua mente se desligou rapidamente para processar o jeito de Michael. Se Louise McGold já era uma garota meio maluquinha, o irmão certamente demonstra esse dom. Se Mickey chegou em casa com toda aquela jovialidade para alguém que é psiquiatra e pintor, não representa ameaça. A menos que ele soubesse disfarçar muito bem, enganando até James Bond se existisse. Então…

 – Desculpe… – Breitner deu um risinho nervoso. – Fiquei com medo que você me desse um tiro.

 – Ah relaxa, cara. Sou pacifista fanático. – Respondeu tranquilamente.

  Eles apertaram as mãos devidamente e se apresentaram. Sem saber que no futuro, não muito distante, seus destinos estariam entrelaçados de alguma maneira, mas isso é outra situação.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Rush 2: Amor a toda prova (1º Capítulo)

E vamos para mais um capítulo!



Capítulo 1: Off To The Races


Freddie POV

Não consegui dormi. Era pra ser uma corrida como qualquer outra. E de alguma forma, eu senti que era mais. Não tinha vontade de fazer nada. Até eu ouvi Superstar, a versão dos Carpenters no repeat do computador. A ansiedade me atacava. Fui ao banheiro e vomitei. Fiquei uns 10 minutos lá. Alguém bateu na porta.

-- Freddie! Freddie! – Era o Oskar.

-- Que é?

-- Está tudo bem?

-- Estou. Vai embora!

Não ouvi mais. Quando senti que todo sentimento de peso e angústia foi embora, tomei um banho, escovei os dentes e fui para o quarto. Oskar me esperava, de roupão.

-- Vamos conversar. – Ele sentou na cadeira da minha escrivaninha. – Você tá bem? De verdade?

-- Não. – Queria ter mentido. – Não consigo dormir. Convidei o Tommy, os amigos dele, Noel e até o pai dele. Garanti que ia ganhar. E agora sinto que vai ser de novo como no mês passado. Eu perdi. Ou melhor, desclassificado.

-- Foram falhas mecânicas.

-- Quer saber? Foda-se se vou perder. Quero parar com essa ansiedade.
-- Talvez seja bom isso. Se está ansioso, significa que vai ganhar. Freddie, você pode não ter ganhado nestas últimas corridas. No entanto, tem boa pontuação. E isso te ajuda também a dar mais um passo para Fórmula 1.

-- Você disse a mesma coisa quando eu estava na Indy.

-- E depois você saiu, não é?

Não argumentei mais com meu irmão. Sei que dormi lá pelas 5 horas da manhã e acordei atrasado pra variar. Compareci no autódromo aos trancos e barrancos.

-- Desculpa! – Disse para a equipe. – Me atrasei e não dormi nada a noite toda.

-- Tá! Agora vista-se e venha logo. Precisamos acertar umas coisas. – Avisou Oskar.

Enquanto me vestia no trailer, avistei ela. Mia Lauda. Minha rival nas pistas. Ela é cinco anos mais velha do que eu e está na Fórmula 3. Sendo filha de quem é poderia muito bem sair desta categoria e competir com Michael Schumacher e a galera grande da Fórmula 1.

Quando saí do trailer encontrei o pessoal.

-- Oi Freddie. – Tommy me cumprimentou.

-- Tommy? O que faz aqui?

-- O babaca até esqueceu. – O comentário veio do Florian.

-- Cala a boca, Flo!

-- Viemos porque nos convidou. – Disse Ned.

-- Eu? Eu convidei? – Isso que dá convidar as pessoas na emoção e quando acha que não vão comparecer, elas comparecem. E você até esquece. – Ah é... Eu convidei.

-- Superstar! – Oskar me chamava. – Está quase na hora.

-- Já vou! – Respondi e em seguida me virei para o Tommy e os alemães. – Obrigado pela presença de vocês. Fiquem à vontade e eu já volto!

De novo desviei para meu irmã0 e vomitei.

-- Outra vez, Freddie?

-- Ansiedade.

Antes da largada, Mia e eu nos encaramos. Ela fez sinal de boa sorte. E eu retribuiu. O sinal foi dado e a largada iniciada. Acelerei o quanto pude e ganhei a pole position. Mia está na minha cola. Apesar de ser rápido a pista pude ouvir um pouco que Tommy e a sua turma não torciam por mim. Nesta hora me arrependo de convida-lo. E esses pensamentos que fizeram com que Mia me ultrapassasse. Faltando uma volta para terminar as três completadas, coloquei toda minha alma, esforço sobre humano e vontade para acelerar. Estou bem perto de Mia Lauda.

Não gosto de fazer uma finta pois a probabilidade de eu ganhar a dianteira é mínima. Acelerei mais e na última curva batemos levemente, o que fez os carros girarem um pouco e Mia sair da pista. Ponto para mim. Voltei para corrida e lá está a linha de chegada. A minha equipe, Laurersdale Power, me parabenizaram. Oskar vibrava de emoção. Corri para abraçar o Tommy e o Noel.

-- VOCÊS VIRAM? – Estava animado e mostrei para os outros rapazes, até para o velho Franz. – EU CONSEGUI!

-- Parabéns Freddie! – Noel não parecia animado.

Tommy abraçava fraco e os outros sorriam forçado.

No pódio comemorei ao lado meu irmão e da equipe. Aliás, esta equipe é formada por amigos do Oskar. Todos mecânicos formados. E playboys. Sério. Lembra que falei sobre estar arrependido de convidar o Tommy e os amigos dele? E estava claro hoje que eles não deram a mínima pra mim e foram consolar Mia.

-- Veja o lado bom, Mia. – Disse. – Segundo lugar é sempre bom.

-- E veja o lado bom, Alfred. – Ela disse. – Sua capacidade de ultrapassagem é boa, mas será que é tão eficiente numa pista de Fórmula 1?

Os alemães se espantaram e claramente eles queriam ver o circo pegar fogo. Ia responder, mas optei em me calar. Se falasse o negócio ia mesmo pegar fogo. Ou melhor... Pegou fogo se não fosse o Florian.

-- Que covarde!

Eu ouvi bem. Florian me chamando de covarde. Peguei a garrafa de champanhe de um dos mecânicos e joguei na cabeça do filho de Uli Hoeness.

-- Quem é covarde aqui, meu chapa?

O resto... Bem, foi uma treta daquelas. Levei três socos e um chute e o Florian um golpe na cabeça com a garrafa e chutei o traseiro gordo chucrute. Chegamos em casa no maior silêncio. Oskar e eu combinamos de não contar por enquanto para mamãe.

-- Alfred!

-- Que é mãe? – Já imaginando o xingamento.

-- Venha no meu escritório agora!

Esconder os olhos roxos e o lábio cortado era impossível.

-- Você contou pra ela? – Perguntei ao Oskar.

-- Não.

-- Então quem foi?

-- Certamente o Tommy ou ela soube pelo Franz.

-- Aquele velho gaga! Odeio aquele cara!

-- Para de reclamar e fale a verdade pra ela.

Quando entrei no escritório, ela estava lá, na cadeira e bem furiosa.

-- Mãe... – Já tinha uma mentira pronta e prossegui. – Me meti numa briga de bar e...

-- Eu sei de toda história. Você voltou a correr. Te proibi desta atividade. E mesmo assim seguiu. E como se não bastasse, briga na rua. Quase matou o Florian.

-- Eu o odeio e todos os amigos do Tommy.

-- Incluindo Noel?

-- Estou incluindo depois do que presenciei. Eu convido aquele bando de mal agradecidos, prometi vencer, venci e eles foram lá dar os parabéns para Mia. Ela pode ser filha do Niki, o pai dela ter ganhado vários prêmios, mas eu sou o melhor piloto da Fórmula 3 e vou correr na Fórmula 1.

-- Enquanto você viver na minha casa, sob o meu teto, não vai correr mais.

-- Você nunca me apoiou.

-- Freddie... Eu vou apoiar você sempre. No entanto suas atitudes nestes anos todos está me machucando.

-- Eu não fiz nada.

-- Se você acha isso, agora que decreto que não vai mais competir nas corridas.

-- Ótimo. Era isso que queria. E sabe por que? Assim vou morar com meus tios. Eles são mais toleráveis do que você!

Lembro da data. Dois de abril de 2003. Eu saí de casa e nunca mais voltei a morar com minha mãe. Eu a amo de todo coração. E não me arrependo de minha decisão. Já fazia anos que não me sentia bem naquela casa.

Morei com meu irmão. No início parecíamos os protagonistas de Two And Half Men, com Oskar querendo que eu saia de sua casa. E depois que soube o que aconteceu, ele permitiu. Preciso arranjar logo um apartamento só meu. Tio Peter me deu toda força do mundo e me deu de presente um dos seus apartamentos. Passava o dia malhando, cuidando da minha tartaruga, jogando vídeo game e vendo filme. Oskar me visitou.

-- Então, Superstar? Já arranjou um emprego?

-- Não. – Disse enquanto alimentava o Janus, minha tartaruga de estimação no viveiro.

-- Uma hora ou outra tio Peter vai vir e te cobrar.

-- E o que quer que eu faça? Quero muito ir para Fórmula 1. Há meses estou na F3 e estou farto. Tudo bem, vou me dedicar mais.

-- Freddie...

-- Que é?

-- A mamãe está chateada com você.

-- Ela disse muito bem que não quer me ver correndo.

-- Ela não queria porque temia que você virasse o papai. E sinceramente, acho que ela está certa.

-- Não tô nem aí.

-- Outra coisa. Você ganhou uma proposta. De uma equipe de corrida.

-- Da Ferrari? – Meu sonho era correr pela melhor, a Ferrari.

-- Não. – Ele sentou no sofá e continuou. – Benetton.

Esperava propostas boas vindas da Ferrari e McLaren, as melhores scuderias na minha opinião. Estava aceitando até da Williams. E agora vem uma que não se ouve falar desde o final dos anos 80 e não teve colocação boa desde então.

-- Eu passo. – Respondi, voltando a jogar.

-- Tem certeza? É uma boa oportunidade.

-- É uma scuderia pequena. Assim não vou ganhar nada. Dispenso!

Oskar bufou e saiu do quarto.

-- Você não pensa como estrategista. Quer coisas grandes, Freddie. Por isso vai ficar na F3 e a Mia vai decolar na 1.

Quando ele disse isso, outra vez pausei o jogo e puxei o braço do meu irmão.

-- Como é que é?

-- Achei que o Tommy ou os amigos dele te contaram. Mia Lauda saiu da Fórmula 3 porque vai para Fórmula 1. O pai dela conseguiu vaga na Ferrari. Ou seja, ela vai correr ao lado de Michael Schumacher.

Tamanho choque que recebi. Não tinha ideia no que pensar. Ao mesmo tempo lembrei do Tommy e os rapazes. Por isso que eles saudavam Mia mesmo na derrota.

-- Aquela filha da mãe vai correr... Pela Ferrari? – Ainda estava chocado.

-- Vai. – Respondeu friamente.

-- Por isso que... Eles...

Sai do quarto e fui para o jardim. Tentava me acalmar. Oskar me seguiu.

-- E como você não quer ir para F1...

Explodi. Como uma bomba relógio. Gritei tão alto que provavelmente acordei algum vizinho. E depois me virei para meu irmão.

-- Eu aceito. – Disse, mais calmo. – Vou correr pela Benetton.



Continua...

Rush 2: Amor a toda prova (Prólogo)

Boa noite, pessoas!

Não sei como dizer, hoje vou postar Rush 2: amor a toda prova, a continuação direta de Rush 1 (que ainda nem está na reta final e não saiu da primeira fase). A fic fala da rivalidade e relação amorosa de Freddie Hunt e Mia Lauda e conheceremos mais esses personagens e mais alguns da Grind. Haverá momentos que ligarão Rush 1. Boa leitura!




Prólogo

Freddie POV

2019

Olhei para meu dedo cheio de cicatrizes. Estava calado algum tempo e meu psiquiatra não era chato. Contudo, exigia que falasse mais. Eu travei. Travei exatamente onde justificava o meu ser. Um nó na garganta se formou. Lágrimas teimavam em cair e fungava o nariz. Me ofereceu a caixa com lenços descartáveis e aceitei. Ele disse que não tinha pressa e era seu único paciente do dia.

-- No fim das contas... – Comecei a dizer. – Eu não sei o que fiz naqueles anos todos que fui piloto. Eu não sei.

-- Talvez você saiba e sua mente esteja confusa. Cheia de lembranças e confundindo tudo. Te fazendo acreditar em algo que não é verdade. Isso acontece, Alfred.

-- Mas por que agora, doutor?  Por que me atacou isso?

-- Você discutiu com alguém?

-- Minha esposa. Foi por bobagem.

-- Mesmo?

-- Sim.

-- O que discutiram?

-- Algo faltando em mim. Desde que me aposentei em 2014, o tempo parou pra mim. Quando eu corria, o tempo se movimentava. Eu devia estar feliz por ficar com minha esposa e meus filhos. Contente com meu trabalho na scuderia, mas tem algo que me cutuca. Me incomodando. Antes que desconfie, não traí Meredith.

-- Não cometeu infidelidade?

-- Jamais. E nem com Noel falei sobre isso.

-- Existem causas que podem ocasionar isso. Ou como chamamos de gatilhos, que nos levam a esta situação. Essa discussão com sua mulher deve ser a razão. No entanto, pra saber o motivo desta angústia, me conte como você era na época de piloto.

-- Posso contar como eu era antes de ser piloto?

-- Pode. – Ele se ajeitou na cadeira, tomou água e me encarou enquanto eu continuava deitado no divã. – Quem é você, Alfred Hunt?



Anos antes...

Eu queria ter uma máquina do tempo. Pra poder ver meu pai pela última vez. Eu não sei o que sou. No dia que minha mãe contou do falecimento dele, Oskar chorou pra caramba. Eu... Não chorei naquela hora. Não chorei no velório, não chorei na despedida. Me limitei apenas num adeus. Uma semana depois a ficha caiu. E me tranquei no quarto. Tinha 16 ou 17 anos. Adolescente. E depois... Transformei a minha vida num parque de diversões.  Eu sou Alfred Hunt. Meu pai, James Hunt, era piloto de Fórmula 1 e foi campeão. Minha mãe, Louise McGold, premiada atriz mundialmente. Meus pais não eram casados, mas chegaram perto se não fosse o pai de um dos meus irmãos. Depois de tudo, Gerd me acolheu como um de seus filhos. Coitado...

Na escola não me queixava. Tirava boas notas, estudava, curtia com meus colegas. Na faculdade também. Após a formatura, resolvi mudar. Se vocês acham que ia me tornar um contador ou advogado, lamento dizer que decepcionei todos. E tudo começou quando encontrei o capacete de corrida do meu pai e seu macacão vermelho e um emblema no braço dizendo “Sexo. Café da manhã dos campeões”. Quando criança meu pai me levava pra correr kart e vencia todas as corridas. Ele dizia que era o único que realmente tem talento e seria um campeão. Diante da reminiscência, encontrei meu meio de vida. E foi em 2003 quando ingressei na Fórmula 3, a categoria mais baixa. Apesar de ser o início, queria mais. Admito que sou um pouco ambicioso. Mas também como meu pai, arrumava confusão com os outros pilotos, como a vez que um deles me bateu com chave inglesa e um canivete, arranhando meu braço, machucando minha testa e hematomas no abdômen.

As enfermeiras me olharam chocadas quando apareci no hospital bem de boa, com lenços na testa e um torniquete no braço. E claro minha roupa de piloto manchada de sangue e óleo.

-- Com licença! – Disse eu, aparentemente calmo. – Acho que o autódromo ligou avisando que eu ia chegar. Sou Freddie Hunt.

Até os pacientes que ali esperavam me olhavam espantados. A enfermeira, novinha por sinal, perguntou:

-- Está tudo bem com senhor?

-- Sim!

A enfermeira novinha me levou para a sala de enfermagem e me deixou sentado na maca. Retirou com força os curativos e cuidou deles.

-- Achei que fosse um acidente. – Ela comentou.

-- Se você chama uma discussão amistosa com seu colega piloto de acidente.

Enquanto ela dava os pontos no corte da testa e finalizava no abdômen e no braço, ela foi mais curiosa.

-- E sobre o que discutiam?

-- A mulher dele.

-- E o que fez? – Ela examinava minha pressão e os olhos.

-- Nada demais. Só o que me pediu.

-- Que foi...?

Tirei o estetoscópio das mãos dela.

-- Eu te mostro se quiser.

A velha cantada de meu pai em levar garotas para cama realmente funcionava. No entanto, nos diários de minha mãe ela não conta que foi desta maneira e sim algo natural. Ou quem sabe ela foi orgulhosa demais para admitir. Lembro quando tinha 10 anos que meu pai disse que as mulheres gostam de pilotos porque é desta maneira que ficamos cara a cara com a morte. Se fosse por dar voltas e voltas, seria ridículo. E concordo. Entretanto, ainda digo que não foi desta maneira que minha mãe ficou atraída por ele. Ela estava ciente de tudo, da profissão dele. E mesmo assim... Ela preteriu meu pai por Gerd Müller. Afinal de contas, o que aquele cara tinha pra tê-la conquistado?

Enquanto perguntava sobre isso lembrei que daqui 3 dias seria o Grande Prêmio no Crystal Palace. Nos dois primeiros dias treinei arduamente. No último dia, passei no estádio Stamford Bridge. Era lá que o Bayern de Munique treinava para o jogo da Liga dos Campeões. Vão confrontar o Arsenal. Assisti o treino do time. Tommy, meu irmão por parte de mãe e filho do Gerd, cumprimentou de longe. E meia hora depois veio em minha direção.

-- Não pode vir aqui. – Ele disse, ofegante.

-- Tô de boa, cara. Mais tarde vou treinar. E seus amigos sentem minha falta.

-- Eles te odeiam, Freddie. Ou espera que o Florian te perdoe por transar com a Freya? E o Ivan te acusar por bolinar a Audrey?

-- Seus amigos são neuróticos. Nunca na minha vida bolinei uma garota. Ivan está inventando.

Foi nesta hora que a turma do Bayern me avistou.

-- Ora se não é o inglês safado do Freddie!

-- Oi, Flo! Você tá uma beleza asgardiana. E os parentes?

Florian se aproximou de mim e me acertou um soco. Me levantei com dificuldade.

-- Quer apanhar mais?

-- Posso fazer isso o dia todo, doçura! – Finalizei mandando um beijo e rindo.

Tommy se atravessou na frente.

-- Para Florian!

-- Vou acabar com ele!

Florian, Ivan e o Ned me olhavam torto. Mandei beijinhos pra eles.

-- Amo vocês, queridos! – Depois olhei pro Tommy e toquei o machucado. – Ai! Florian é forte. O pai dele não é fortão assim. Eu acho que o Uli não é pai dele.

-- Foi muita sorte em te defender.

-- Ah veja! Noel chegou!

Noel Beckenbauer é meu melhor amigo. Honesto e nunca escondeu algo de mim.

-- Noel meu amigo! – Coloquei o braço envolta do pescoço dele e dei um beijinho no rosto. – Diga pro Tommy o que aconteceu com a Audrey.

-- Freddie não bolinou a Audrey.

-- Viu só?

-- Ele cantou a Audrey e ela jogou cerveja e uma torta na cara dele.

Todos riram. Florian, Ned e Ivan voltaram para nossa rodinha e deram risadas como hienas.

-- É, mas no final eu a peguei.

-- Freddie, vai embora! – Pediu Tommy.

-- Que há com você? Costumava me receber tão bem e agora tá careta, Thomas?

-- Estamos sendo vigiados. – Respondeu Noel. – Pelo meu pai.

-- Ah não sabia que estamos em 1984 e o herr Beckenbauer é o “Grande Irmão”. George Orwell vai mandar vocês pro inferno!

-- Vai embora, Freddie!

-- Tá, mas antes quero convidar vocês amanhã para o Grande Prêmio no Crystal Palace.

O pessoal deu um tipo de mugido bem desanimado. Ouvi Ned comentar, mesmo baixinho, que vou fracassar de novo. Odeio admitir, mas a verdade é que nas últimas corridas pela Fórmula 3 não tive a mesma sorte que nas primeiras.

-- Vai ser complicado de irmos...

Foi neste momento que tremi quando ouvi a voz do pai do Noel.

-- Ora ora, se não é Freddie Hunt?

-- E lá vem o satanás em pessoa! – Eu disse.

-- Não devia estar treinando em sua próxima corrida?

-- E não devia estar trabalhando, velhote?

Quando era criança, eu tinha medo de Franz Beckenbauer. Ele não gostava de mim pelo fato quem era meu pai. E tampouco gostava da minha amizade com Noel. Teve um dia que bati em Stefan, o filho mais velho dele. Franz puxou minha orelha. Para mim, ele é o Satã em pessoa.

-- Eu só não te dou uma resposta indecente porque estamos num treinamento. Agora vai embora e deixe os rapazes em paz.

Novamente insisti no convide.

-- Ok, monsieur, herr, sir.... Senhor Beckenbauer, deixa o pessoal comparecer na corrida. Estou convidando todos vocês. Inclusive o senhor. Por favor!

Eu odeio me rebaixar desta maneira.

-- Por favor, pai. – Pediu Noel. – Minha irmã também vai correr. Seria bom prestigia-la.

-- Quando será a corrida? – Perguntou Franz, ainda sério.

-- Amanhã! A largada será às 10h.

-- Vou tentar comparecer.

-- Obrigado pessoal!

Talvez Franz não vá, mas tenho certeza que meus amigos irão. Eu senti que desta vez vou ganhar...


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Rush - No Limite da Paixão (11º Capítulo)

Olá pessoal!
Tenham uma boa noite e depois de muito tempo, Rush retorna de seu hiatus. Aviso: NC-17! Boa leitura!



Capítulo 11: Hot Love
Louise POV

Estava descansando nos braços do Hunt e Odile também. Ele fumava, feliz e nos acariciando quando ouvimos alguém entrando no apartamento e depois no quarto. Era Niki Lauda, chocado com que viu.

-- Odile!

-- Niki! – Disse minha amiga, se levantando, um pouco com medo.

-- O que... está acontecendo? E por que ele está assim... com a Louise e você... nua?
Intercedi rapidamente.

-- Niki, olha pra mim. – Não me importei se estava nua, apenas tirei Niki do quarto e fechei a porta atrás, deixando Hunt e Odile sozinhos ali.

Quando o ratinho austríaco ia reclamar mais, eu o beijei ali no corredor. Nosso beijo ficou mais envolvente e paramos. Niki me olhava meio safado e apertou um pouco minhas nádegas.

-- Vem comigo...—Levando ele pro meu quarto e trancando a porta.

Niki estava um pouco travado no inicio e então o beijei mais uma vez, tirando seu casaco e desabotoando aos poucos sua camisa azul. Entre beijos e caricias, fiz o namorado de Odile se sentar na cama e ainda apalpei ali embaixo entre suas pernas, sentindo sua ereção.

-- Louise... – Ele gemia. – Por favor...

Abri sua calça e tirei junto sua cueca. Niki se deitou e eu beijei todo seu corpo, até resolver fazer sexo oral. Sugava seu membro com vontade, fazendo Niki gemer mais alto. Depois disso, foi à vez dele retribuir todo o prazer para mim. Ele me tocou usando dois dedos para a penetração e depois me chupava tanto que acabei gritando.
Niki ficou por cima de mim e me penetrou devagar. Eu o abraçava e gemia em seu ouvido.

-- Niki... Oooohhh... meu amor... Você é tão... ohhhh... quente...
Enquanto ele seguia nos movimentos, ele mordia meus seios e os apertava mais. Niki aumentava mais a velocidade nas estocadas e gritei mais de prazer e num dado momento, deixei marca de chupão no pescoço dele.

-- Louise... aaahhhh... eu não... vou agüentar... oooohhh...

Atingimos juntos o orgasmo e ao mesmo tempo ouvimos os gritos de Odile e Hunt no outro quarto.

Minutos depois James abre a porta, entrando em meu quarto.

-- Minha vez. Pode voltar para francesa, ratinho.

Niki me olhava com certa pena e sorriu.

-- Gostei muito, Louise.

E pegando suas roupas, ele caminhou para o quarto de Odile, nu. E eu e Hunt finalizamos. Cerca de duas horas depois eles foram embora e eu fiquei na cama, suspirando pelos dois. Não é certo, já que Niki é o namorado de Odile. Mas quem garante que ela não esteja assim pelo meu namorado? E estranhamente... não estava com ciúmes.

-- Quer tomar banho comigo, mocinha? – Odile me convidava, sem roupa, para um banho.

Não neguei e nos banhamos ao mesmo tempo um pouco de amor. Durante o café ela me confessa algo. Que estava apaixonada por uma de nossas colegas de palco, Joanna Martin, uma ruiva galesa de Swansea e recentemente integrou o elenco de Barry Thompson, junto com sua irmã, Miranda. Adoro Joanna, juntamente com suas duas amigas, Alberta Mann e Renée Chapelle. Esta última descobri que é prima de Felicity por parte da tia Sophie. Durante a conversa sobre almas gêmeas no qual Odile sempre falava com vontade, refleti um pouco. Na verdade meus pais haviam falado disso para mim e meus irmãos.
Por duas vezes acreditei que tivesse encontrado minha alma gêmea. A primeira foi Anastacia Rosely. Desde que conheço por gente, nós duas convivemos desde que éramos bebês. Aliás, meu pai foi namorado da mãe de Ana e também sua alma gêmea é justamente Alexei Romanov, o pai de Ana. A segunda vez que me enganei foi agora com Odile. Não sinto raiva ou frustração. Estou até feliz por Odile. Contudo, me veio o pensamento de que eu não tenha alma gêmea...

-- Um níquel por seus pensamentos. – Odile afagava meu cabelo. -- Esse olhar significa que você esta pensando em algo.

-- Vejo que não escondo nada de você. – fingi lamentação e ri um pouco. -- Estou feliz por você e a Jo. Só que... Eu pensei que você fosse minha alma gêmea. Não estou brava. Só um pouco pensativa. Acho que não tenho.

-- Ah sim. – Odile compreendeu meus pensamentos. -- Por mais que Joanna seja minha alma gêmea, você sabe que é a minha pessoa favorita nesse universo?Talvez você seja minha segunda alma gêmea.

-- Sim... eu acredito. – concordei. -- Mas quem é a minha primeira alma gêmea? Isso que me vem tirando o sono algumas vezes. – reclamei um pouco.

-- Se não é a Anastacia, então é a Alice.

-- ALICE? – fiquei espantada com a certeza de minha amiga. -- Odile, por favor, tudo bem que Alice é linda, maravilhosa mas... sem chance.

-- Sem chance por que, mocinha? Você mesma não disse que sentia uma estranha ligação por essa moça?

-- Sim mas deve ser passageiro, Odile. Eu quero uma pessoa que me complete como você. De modo verdadeiro.

-- Então, vou te propor algo. Só pra desencargo de consciência eu sairei com Joanna e você com a Alice. Faremos amor com elas. Se não sentirmos nada é porque eu e você somos almas gêmeas.

-- E se você sentir algo pela Jo e eu nada pela Alice? Ou vice versa?

-- Eu prometo, por tudo que rege este universo que vou te ajudar a achar sua alma gêmea.

Abracei Odile com carinho e sorri. Ela é sem dúvida minha verdadeira amiga.

-- Obrigada, Odile. Agora eu quero saber. Só entre nós. – cheguei mais perto dela. -- Sentiu algo quando conheceu pela primeira vez Franz Beckenbauer?

-- Sabe quando um raio te atravessa e depois você sente uma descarga de mil voltz no seu coração? – perguntou ela e sorrindo. -- Então, foi isso que senti. E que fique entre nós, às vezes eu imagino eu e ele....você sabe...fazendo amor.

--Você sabe que guardo segredo muito bem. Pelo menos se deu bem.

-- Como assim? Você mesma disse que sente atração pelo Gerd.

-- ODILE! – de novo me espantei. Mas com a diferença que havia se esquecido desse detalhe. -- Eu disse porque era a brincadeira da verdade e conseqüência. Não me imagino com... ele! Ai meu deus!

-- É nesses momentos que descobrimos as piores verdades. – disse a francesa, servindo mais leite. -- Ah Louise, conta outra! Você já deve ter se tocado pensando no Der Bomber.

-- Não... eu não fiz isso. Ele é horrível!

Odiava admitir mas a verdade é que realmente me masturbava pensando em Gerd. Até no banheiro chegava a gemer o nome dele e a noite pensava nele demais.

--E ele não é bonito. E também ele disse que brigo igual a um marinheiro. Se eu o odeio, ele me de detesta! – garanti.

-- François Truffaut me disse em sua ultima carta que o amor pode começar como uma briga dessas.

-- E ele disse uma solução pra isso?

-- Aceitar os sentimentos.

Abri os olhos, mais assustada e coloquei as mãos na cabeça, em sinal de derrota.

 -- Então estou perdida!

-- Então...quer fazer amor mais um pouco ou sair pra passear? – perguntou Odile.

-- Eu quero passear.

E nós duas caminhamos pelas ruas de Londres, conversando agora sobre a viagem rumo ao Brasil para a corrida de Fórmula 1. Quando passamos pelo Hyde Park, avistamos dois ônibus personalizados. Um era verde com um símbolo de cruz. Olhei mais atentamente e era da seleção norte irlandesa. Isso significa que George Best vai jogar. No entanto não avistamos Best. O outro ônibus era amarelo com detalhes em preto e vermelho e escrito “Alemanha”.

-- Louise... – Odile praticamente sorria. – Isso significa que...

-- Sim. – falei em tom de derrota de novo. Juro que o universo está conspirando para que meu caminho se cruze com... com ... aquele urso germânico! – Odile, eu não quero encontrar ele!

-- Tudo bem. Mas eu queria ver o Franz, Gerd vem no combo.

-- Por favor, Odile. Eu não quero falar com ele. Você pode mas me deixe fora disso.
Com tudo isso, ela caminhou em direção a mannschaft e conseguiu atrair atenção de Franz e de toda comitiva. Assim fica melhor. Desse jeito não irei conversar com ninguém. Fiquei atrás das árvores um pouco. Nestas horas eu desejava estar na arquibancada do autódromo de Crystal Palace e admirar as corridas. Na verdade relembrar o dia que conheci por completo Hunt. Não tinha dúvidas que o amava mas... Por que o jogador alemão vive nos meus pensamentos? Me culpei demais nestes pensamentos. De uma forma engraçada, interrompi tudo quando vi... uma meia! Vermelha e conversando comigo.

-- Hallo!

Pisquei duas vezes achando se tratar de um delírio ou efeito de alguma droga. O problema é que não consumo drogas desde 1969 em Woodstock. Olhei de novo pra seleção alemã e não encontrei Gerd. Foi aí que saquei tudo. Puxei o braço da pessoa e lá estava ele, rindo e tirando a meia da mão.

-- O que você quer? – me irritei.

-- Calma. Só queria conversar com você. Notei que sua amiga dá atenção pra todos e senti sua falta.

-- Está mais que claro que não estou a fim de conversar. Portanto vai embora.

Ele ficou ao meu lado, assobiando uma canção qualquer. Na verdade reconheci a música.

-- Hooked On a Feeling. – eu disse enquanto olhava para grama.

-- O que disse?

-- A música que você está cantando é Hooked On a Feeling, do Blue Sweede. – respondi.

Ele não disse mais nada. Só depois de uns minutos.

-- Não consigo parar de pensar em você.

-- Cobiçar a mulher alheia é errado, sabia? – perguntei. – Eu tenho namorado!

-- Eu sei disso. – ele tocando minha mão e paralisei. Na verdade eu tremi. – Acho que penso em você mais que Franz pensa na sua amiga francesa.
De novo me culpei. E admiti.

-- Você também não desaparece dos meus pensamentos. – encarei em seus olhos. – Na verdade... Eu... – cheguei perto dele, sussurrando em seu ouvido. – Quero sentir você... dentro de mim.

Conhecendo bem os homens, quando ouvem essas palavras, logo se animam.  Ele ainda segurava minha mão, mais forte.

-- Você me faz ficar desconcentrado. Como se a única coisa que me importa fosse você.

-- E isso é ruim?

-- É ótimo.

Pela primeira vez eu sorri para um cara que não é meu namorado.

-- Seu... namorado ainda está na cidade?

-- Sim. – respondi. – Amanhã Odile e eu iremos viajar com Niki e o Hunt. Grande Prêmio do Brasil.

-- Puxa...  – ele parecia se lamentar. – Se quiser me ver, pode ser hoje à noite? A seleção está hospedada no Hilton.

-- Talvez eu vá. – sorri, um pouco divertida. – Eu vou mesmo. Me espere as sete?

-- Procure um tal de “Oliver Mann” ou por “Hans Solo”. Podemos comer batatas fritas e assistir TV.

Ri um pouco e de repente vi Odile e Franz se beijando e bem forte. Ao que parece ela não se importa se Niki aparecer e ver aquilo.

-- Te vejo hoje à noite. – fui embora.

Odile e eu nos encontramos fora do Hyde Park.

-- Você...viu aquilo?

-- Se você fala do beijo, sim. Niki é meu amigo, mas não vou falar nada. – garanti.

--Me sinto tão culpada por nutrir sentimentos por Franz.  Amo Niki mais do que tudo, mas quando estou com Franz meu mundo pára. E ele me convidou para ir vê-lo no hotel, disse que ia pensar. Acho que não vou.

-- É exatamente isso que sinto quando estou com aquele urso alemão grande. E eu vou ir. Vamos.  A viagem é amanhã, Niki tem reunião com o pessoal da scuderia e Hunt está lá com Hesketh e lá pela meia noite voltaremos pra casa logo.

-- Tudo bem, eu vou com você.

A tarde toda só pensei numa coisa. Dividida entre meu namoro e um caso. No meio da tarde ouvi Odile falando com alguém no telefone.

-- Sinto muito, mas não dá. – e desligou.

Ela me encarou triste.

-- Não irei ver o Franz. Não é certo o que estamos fazendo com Niki e o Hunt.

-- Concordo plenamente. – disse.

E anoiteceu, não fomos ao encontro e ficamos em casa para preparação. Aproveitei para uma ligação. Mamãe atendeu.

-- Alô?

-- Oi, mãe. – me alegrei. Era tão bom ouvir a voz dela. – Como você está?

-- Um pouco cansada. – ouvi barulho de sapatos caindo. – Faz cinco minutos que cheguei em Ripley.

-- Onde esteve?

-- Moscou. Com a Olga.

Olga Romanov é a tia de Ana e amante ocasional (melhor dizer antiga já que o romance delas começou desde antes de eu nascer) e ela mora com os Romanov.

-- Foi muito bom. – ela pausou um pouco e disse por fim. – Vou passar o telefone pro seu pai e eu vou tomar banho.

-- Ok. – enquanto esperava, senti uma dor no peito meio angustiante. – Oi, pai.

-- Olá, mocinha. – papai é uma figura. Ele sempre me chama de mocinha. – Como está a vida londrina?

-- Melhor do que antes e me divertindo. – pausei um pouco pra massagear o peito por conta da dor e voltei a falar. – Pai, amanhã vou viajar com a Odile e meu namorado.

-- Tudo bem. E para onde? E quem é seu namorado?

-- O nome dele é James Hunt. Ele é piloto da Fórmula 1.

-- Um piloto!? – se tornou normal para mim que papai não aceitasse nenhum dos meus namorados. – Olha só, quando você voltar, traga este rapaz para cá. Queremos conhecer.

-- Sem problema. E mandarei um cartão postal do Brasil.

-- Brasil? Ah, o Brasil... Não vou desde 54, quando conheci minha grande amiga Lota e a Elizabeth Bishop. Mas enfim, boa viagem e aproveite lá. É verão e o calor é intenso.

-- Pode deixar.

Desligando o telefone, a dor passou. A insônia me atacou. Pensava no Gerd e minha tentativa frustrada de infidelidade, James, Niki, a viagem, a corrida...Não costumo ter dores no peito por nada e na mesma hora que liguei pra minha família, aconteceu. Eu sei que é um sinal. Seria de um acidente na corrida com meu amigo ou com meu namorado? Ou do avião que nos levará? Nunca tive medo de avião mas depois disso associei com a morte de Buddy Holly. Fui para a cozinha e tomei um copo de leite. Voltei a dormir, mesmo chorando.

Acordamos atrasadas. Hunt e Niki quase perderam o vôo e a paciência. Saímos do apartamento e rumamos para o aeroporto. Para nossa sorte (ou seria azar?) o nosso avião sairia atrasado por conta de problemas técnicos. Agradeci um pouco por não embarcar num avião defeituoso. Niki e Odile foram conversar com a equipe, James seguiu com Hesketh para definir os últimos detalhes e eu fiquei de novo sozinha, sentada no sofá de espera e olhando para a janela os aviões chegando e levantando vôo. Foi aí que ouvi uma voz.

-- Por que não apareceu ontem?

Ele apareceu com a carinha de um urso sonolento. Meu Deus, por que ele demorou para entrar na minha vida? Deveria ser ele e não o Hunt como meu namorado. E como desejei ninar este ursinho alemão.

-- Não vou trair meu namorado! – respondi. – E eu estava fora de mim. Sei lá... Por favor, esqueça o que eu disse ontem.

O próximo ato dele foi tirar um pedaço dobrado de papel e me entregou discretamente. Ainda bem que Hunt não viu.

-- Me escreva, por favor... – os olhos dele embora quase se fechando, notei um pouco os leves tons de vermelho.

-- Gerd... – me culpei por ter o chamado em voz alta.

-- Só me conte se é realmente muito quente lá. – ele sorria. – Eu... terei um amistoso e quero me preparar.

Aquele sorriso salvou meu dia ruim. E ouvi claramente meu coração bater mais forte de quando conheci o Hunt. O suor nas mãos, o corpo incendiando. O sinal que esperei para quando for me apaixonar.

-- Eu prometo te contar. – sorrindo de volta e guardando o bilhete na bolsa. – E também me perdoa por não aparecer.

-- Eu perdôo. – ele toca minha mão suada. – Um dia quero te levar pra jantar, Louise. Se você permitir.

-- Sou uma garota exigente. – disse bem sapeca.

-- Saberei como te agradar. – e depois me deu um beijo quente na bochecha e voltou a me encarar. – Ursinha.
Depois ele foi embora com a seleção. Não fazia idéia qual era o itinerário esportivo deles, contudo voltei para perto do meu namorado. E se passou uma hora e conseguimos embarcar no avião. Não senti medo mais. E nem a dor. O coração batia a mil e eu sorria como uma louca. Hunt dormiu junto com Niki e o pessoal das scuderias. Odile e eu permanecemos juntas. Ela lendo e eu desenhando.

-- Bélgica. – disse Odile.

-- O que disse? – perguntei, meio distraída.

-- Franz me contou que a mannschaft vai pra Bélgica. É um amistoso e depois vão para o Brasil.
Agora entendi, embora no fundo tivesse esperança de reencontrar Gerd em terras brasileiras, desta vez eu tinha que esperar. Liguei o rádio portátil e coloquei um fone de ouvido. Ouvi Ne me laisse pas l'aimer, da Brigitte Bardot e só pensei no Gerd e neste momento só desejo visitar outro lugar, um país que sempre quis conhecer: Brasil.


Continua...